Visita à redação de um jornal budista

Entre as melhores lembranças  que tenho do meu pai, estavam as vezes em que ele me levava para São Paulo, geralmente para visitar o escritório de algum cliente. Isso na época em que meu pai ainda mexia com registro de marcas e patentes, lá na primeira metade dos anos 1980. Para um garoto que  morava em São Caetano do Sul, na época ainda muito provinciana, São Paulo era um deleite, pois, apesar de meu pai quase sempre estar sem dinheiro, quase sempre com dificuldades para pagar o aluguel do apartamento em que morávamos(em época de inflação alta, quando o presidente da República ainda era o Figueiredo), sempre que podia, ele era muito generoso comigo nessas idas a São Paulo, pois à vezes comíamos um lanche no McDonald’s (naquela época não tinha lanchonete dessa franquia em São Caetano), andávamos de metrô (que parecia um “trem-bala” ou “trem do futuro” para os padrões da época, quando as poucas linhas disponíveis ainda não estavam tão saturadas quanto hoje e cuja limpeza dos vagões e estações contrastava ainda mais com as dos trens comuns), e ,às vezes, dava para comprar um gibi novo numa banca de jornal,ou melhor ainda, visitar alguma livraria do centro como a Siciliano ou a Brasiliense. Para mim, aquilo era uma fuga do tédio da escola e do apartamento, que considero o tipo de habitação mais claustrofóbica possível para uma criança.

O primeiro desenhista de quadrinhos que conheci pessoalmente

Há duas visitas da quais não me esqueço e ambas foram no mesmo local, no ano de 1984, que, felizmente, foi bem diferente do mundo descrito no livro de George Orwell. Entre os clientes do meu pai estava o pessoal da Sokka Gakkai,uma instituição religiosa budista (de um dos ramos do budismo, o Nitiren),e,por causa disso, meu pai costumava trazer exemplares do jornal Brasil Seikyo,publicada pela editora de mesmo nome, pertencente à Sokka Gakkai.Esse jornal semanal, que existe até hoje, trazia uma tira de quadrinhos na última página de cada exemplar. O nome dessa tira era Batuta e Teorino, tinha uma dupla de amigos como protagonistas e sempre trazia algum ensinamento budista. Como na época, eu já procurava sempre saber tudo sobre quadrinhos, colecionava gibis do Maurício de Sousa e lia tudo que me caísse em mãos (desde tiras de jornal a álbuns de Asterix), eu sempre procurava a tira do Batuta e Teorino na última página do jornal. As tiras também traziam uma assinatura do autor, na qual se lia EGO. Pois bem, certa vez, acompanhei meu pai numa visita à redação do Brasil Seikyo, onde tive a oportunidade de conhecer o autor daquelas tiras, um jornalista chamado Elio Giro Otani (cujas iniciais formavam o nome artístico dele), mas que todo mundo chamava de Giro. O Giro foi muito gentil comigo e me deu algumas palavras de apoio para que eu continuasse desenhando, para que algum dia, eu também publicasse meus próprios quadrinhos e criasse minhas próprias personagens. Sei que tudo isso soa bem ingênuo, mas para um garoto de dez anos, numa época em que a internet não existia nos lares, o simples fato de conhecer alguém que desenhava uma tira que ele via impressa no jornal era demais! Ele chegou até a me presentear com duas cópias de duas tiras autografadas e com dedicatória, uma delas até colorida manualmente com canetinha. Durante muito tempo, guardei essas tiras como se fossem um prêmio, até se perderem em algum lugar.

Teorino_Exame87

Os livros do China

Lembro-me que nessa visita, enquanto o meu pai foi conversar o Senhor Nakajima, que era um dos diretores da instituição, o Giro me mostrou a redação do jornal e me apresentou a equipe toda, todos sendo incrivelmente gentis e atenciosos comigo. O mais engraçado é que eu acho que eu era a única pessoa na sala que não possuía ascendência japonesa. Uma das moças na sala me lembrava (na minha visão infantil)  uma das mocinhas do seriado do Spectreman ( na época, o SBT e a Record viviam reprisando seriados de super-heróis japoneses como o Ultraman e o Ultraseven entre outros). Nessa visita, conheci um jovem jornalista chamado Julio Tadachi China, que trabalhava junto com o Giro, e que era conhecido como “China”.  Pois bem, nessa visita, lembro-me que o China estava na mesa dele, cercado por funcionários que me mostraram exemplares encadernados do Brasil Seykyo, onde era possível perceber a evolução do visual das tiras do Batuta e Teorino. Foi então que o China me mostrou um livro que ele tinha na estante, cheio de ilustrações feitas com aerógrafo e outros materiais, com imagens de naves espaciais, seres extraterrestres e coisas do tipo. O nome do livro era Solar Wind, e republicava as ilustrações que o britânico Peter Jones havia criado para vários livros de ficção científica. As imagens daquele livro me deixaram boquiaberto, pareciam uma mistura de Guerra nas Estrelas (que era como chamávamos Star Wars naquela época) com as coisas que eu via nas capas de A Espada Selvagem de Conan. Foi então,que num enorme gesto de generosidade,o China me presenteou com aquele livro e escreveu a seguinte dedicatória: “Ao Marco, para um futuro grande profissional!”. Esse livro fez minha imaginação viajar para outros mundos durante muitos anos.

Solar_Wind_00fc_01

Não bastasse isso, em outra visita à redação do Brasil Seyko, o China me presenteou com outro livro, Como desenhar e pintar e desenhar pessoas, de autoria de Samuel Marshall. A dedicatória do China nunca vou me esquecer; “O livro anterior era fantástico, mas com este você vai aprender muito mais! Espero que contribua para que você seja um desenhista do futuro, um desenhista do século XXI, e que você possa ajudar para a difusão do humanismo em seu século”.

como_pintar_e_desenhar_pessoas

Embora eu nunca tenha me destacado como desenhista no estilo naturalista, minha veia sempre foi mais para o desenho humorístico, pratiquei muitas vezes os exercícios daquele livro, copiando especialmente as gordinhas peladas e aprendi uma coisa ou outra. Mas o mais importante dessas visitas, não foram nem as tiras autografadas pelo Giro, nem os livros que ganhei de presente do China, o mais importante foram os exemplos de generosidade que eles me proporcionaram, não só eles, mas também o meu pai, que tenho certeza está vivo em um plano dimensional bem mais evoluído moralmente.

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