Estágio no estúdio de Ely Barbosa

Uns três anos antes antes de vender roteiros do Peninha e do Morcego-Vermelho para a  Abril Jovem e de visitar o estúdio Maurício de Sousa para uma entrevista, conheci o estúdio de Ely Barbosa (1939-2007) . Na época eu estava na oitava série e aos sábados frequentava um curso livre de quadrinhos em uma escola em São Bernardo do Campo. Certa vez, o Otávio Barbosa, filho do Ely Barbosa apareceu lá para uma palestra. O professor do curso havia arranjado cópias de model sheets das personagens de Ely Barbosa e muita gente na turma tentou fazer teste como desenhista para o estúdio do Ely Barbosa. Pelo pouco que pude perceber na época, se os testes tivessem 90% de semelhança com os model sheets seria insuficiente para conquistar uma vaga como desenhista no estúdio e a concorrência era tremenda. Resolvi tentar o “caminho mais fácil”, fiz um roteiro com storyboard para uma história em quadrinhos do Gordo que tinha um gibi próprio sendo publicado na época pela Editora Abril: Gordo & Cia.

O roteiro que eu havia criado era bem clichê, meio parecido com histórias da Turma da Mônica: o Gordo estava sozinho em casa à noite quando um ladrão (com boné e máscara ao estilo dos Irmãos Metralha) aparece. No final, o ladrão se entrega à polícia após quase se afogar no mar de lágrimas criado pelo choro com berreiro do Gordo. No quadrinho em que aparecia o close do Gordo chorando, inseri um texto de recordatório infame orientando o leitor a reler o mesmo  quadrinho tantas vezes  seguidas.

Pois bem, por causa dessa amostra de roteiro, fui convidado para fazer um estágio como roteirista no estúdio do Ely Barbosa. Fiquei sabendo que o próprio Ely leu o meu roteiro e havia gostado. Tive a oportunidade de conhecer alguns profissionais, dentre os quais, o Vanderley Feliciano, letrista e arte-finalista (tempos depois,soube que ele faleceu em 2000), e o Aparecido Norberto (“Cidão”), desenhista que depois trabalhou na Abril Jovem,desenhando quadrinhos Disney. Um dos roteiristas que trabalhava lá era o Mascarenhas, que faz a voz do Xaropinho no Programa do Ratinho. Lembro também de uma coisa muito sábia que o Ely disse: “Tornar-se desenhista é que nem tornar-se médico! Requer anos de estudo!”

Para chegar ao estúdio, precisava pegar umas quatro conduções: um ônibus intermunicipal de São Caetano para São Paulo, baldeação por duas linhas de metrô e mais um ônibus que parava praticamente na porta do estúdio, na avenida Indianópolis, perto do aeroporto de São Paulo. Praticamente tinha que pagar para ir trabalhar lá!Na época, eu estudava no período vespertino  e era complicado sair do estúdio a tempo de chegar na escola. Além disso, não havia conseguido  transferência para o noturno.

Por causa da dificuldade que era chegar lá e também por conta da minha imaturidade, acabei deixando aquilo de lado. Na época eu era só um garoto arrogante mais interessado em quadrinhos de super-heróis do que em criar quadrinhos infantis, como se um gênero fosse mais ou menos “digno” do que outro. Hoje, teria agido diferente, teria proposto trabalhar em casa como freelancer.

Na verdade, hoje vejo que o Ely Barbosa havia me oferecido uma grande oportunidade para conviver com profissionais de verdade e aprender algo com eles. No Brasil existe estágio remunerado, o que é algo relativamente recente. Só para fins de comparação, nos Estados Unidos, estágio (internship) sequer é remunerado, só vale créditos para concluir a faculdade. Do ponto de vista de uma empresa, o estagiário é um investimento de risco: dá trabalho ficar ensinando novato e o estagiário pode se mostrar inadequado para a função, o tempo que foi gasto com ele pode não dar retorno algum. Na Marvel e outras editoras de quadrinhos dos Estados Unidos, de vez em quando aparecem vagas para estágio e os estagiários além de não receberem remuneração, trabalham pra caramba, ajudando em funções como xerocar e arquivar documentos, preparar cafezinho, organizar cronogramas, auxiliar em funções burocráticas etc. Claro, que é uma oportunidade para fazer contatos profissionais que podem abrir portas no futuro, mas é uma coisa demorada, requer paciência. Pena que jovem raramente tem paciência!
Por outro lado, do ponto de vista do estagiário, pagar para trabalhar pode ser algo meio elitista. Para quem não nasceu em “berço de ouro”, estágio pode custar caro. Hoje, gostaria de ter tido a fibra que o teve o Chris Gardner, o sujeito que inspirou o filme À procura da felicidade (The Pursuit of Happyness) ,estrelado pelo Will Smith. Em 1989, quando estava na oitava série, não tive essa fibra. Tive um pouco dessa fibra, anos depois, na USP, quando arranjei um trabalho na sala de informática da faculdade, no qual, o que eu ganhava ia uns 90% para comprar passe escolar de ônibus e de metrô.

gordo_e_cia

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2 comentários sobre “Estágio no estúdio de Ely Barbosa

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