Todo colecionador de quadrinhos queria ser um quadrinista?

O Fernando Bedim é  um colecionador de quadrinhos que mora no Paraná. Ele também é o administrador do Central HQs, um vlog que se caracteriza por apresentar resenhas de quadrinhos de maneira descontraída. Um dos vídeos que ele postou é sobre o sonho que muito leitor de quadrinhos tem ou já teve: o de se tornar quadrinista.

Me identifiquei muito com o depoimento que o Fernando apresentou e tenho certeza que outros também se identificarão. Detalhe: apesar de não ser quadrinista profissional, o Fernando trabalha numa área onde a imaginação, a criatividade e o gosto por ler e escrever também são fundamentais. Ele é advogado, formado pela Universidade Estadual de Maringá. E para quem acha que advocacia e quadrinhos não possuem relação alguma, vou citar apenas alguns nomes dos quadrinhos que também se formaram em Direito: Gardner Fox,roteirista que criou uma porção de personagens para a DC Comics (Flash, Senhor Destino, Gavião Negro, Sociedade da Justiça, Liga da Justiça etc); Bill Mantlo ,roteirista que trabalhou para a Marvel nos anos 1970 e 1980, para quem criou os Guardiões da Galáxia e escreveu histórias do Hulk e do Rom; Gedeone Malagola, já falecido roteirista e desenhista brasileiro,  muito atuante nos anos 1960, criador do super-herói Raio Negro, a “versão brasileira do Lanterna Verde”; e o Ziraldo, que dispensa apresentações.

Eis o vídeo que o Fernando postou no Central HQs:

Resenha para o site “Quadrinheiros”: Era a Guerra de Trincheiras

De julho de 2013 a abril de 2014, trabalhei na EFAP (Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores do Estado de São Paulo), cujo prédio é próximo ao estádio do Palmeiras. Foi um período bem agitado, madrugava bem cedo (antes das cinco da manhã) para conseguir chegar às nove, saía de lá às seis da tarde, e não chegava em casa antes das nove e meia ou dez horas da noite.  Sem falar que, às vezes, por conta do serviço, tive que viajar para Brasília e para o interior de São Paulo, o que significava menos tempo ainda com a família. Meu filho tinha só alguns meses de idade quando comecei a trabalhar lá.

Apesar da rotina cansativa, o período que trabalhei na EFAP também foi marcado por coisas boas. Uma delas foi o convite para colaborar no site Quadrinheiros. O convite partiu de dois colegas meus na EFAP, o Bruno Andreotti e o Adriano Marangoni, ambos formados em História pela PUC, ambos aficionados por quadrinhos.O Bruno e o Adriano estão entre os autores/editores do  Quadrinheiros. Eles fazem o site por hobby, mas mesmo assim, o blog deles possui conteúdo bem melhor que o de alguns sites feitos por jornalistas profissionais. Ou seja, publicam matérias originais e não traduções disfarçadas de notícias que saem em sites estrangeiros.

E foi para o site deles que fiz um dos meus textos que mais gostei de escrever, uma resenha sobre o álbum Era a Guerra das Trincheiras, uma história em quadrinhos ambientada na Primeira Guerra Mundial, escrita e desenhada pelo  francês Jacques Tardi. Quem quiser ler a resenha clique o link a seguir e aproveite para ler os textos dos outros “quadrinheiros”:

http://quadrinheiros.com/2013/12/18/a-primeira-guerra-mundial-em-quadrinhos-era-a-guerra-das-trincheiras-de-jacques-tardi/

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MARCOS TETELLI: Um desenhista que ainda precisa ser redescoberto

Em meados de 1989, conheci Marcos Tetelli numa escola de desenho em São Bernardo do Campo. Na época, eu tinha quinze anos, o Tetelli um pouco mais que isso. Quem dava aulas lá era um sujeito que já havia publicado uns trabalhos pela extinta Press Editorial (que publicava gibis de terror e pornôs) e feito a arte-final de alguns quadrinhos infantis para a Abril. O Tetelli já chamava a atenção pelos seus desenhos. Ele era muito fã da arte do John Byrne, que era um desenhista extremamente popular na época,principalmente pela fase em que desenhou os X-Men (com arte-final do Terry Austin). Apesar disso, seus primeiros desenhos lembravam muito os do Pat Broderick (que desenhou histórias do Nuclear para a DC e do Capitão Mar-Vell para a Marvel). Com o tempo, o Tetelli começou a buscar referências em outros artistas de técnica mais apurada: Neal Adams, José Luiz García-López, Esteban Maroto, John Buscema… O resultado não poderia ser outro: seus desenhos ficaram ainda melhores. Mais ou menos como Jerry Siegel e Joe Shuster, os ingênuos criadores do Super-Homem, formamos uma parceria, tentando produzir quadrinhos juntos. Eu roteirizava e desenhava, o Tetelli finalizava. Ou melhor, ele redesenhava o meu trabalho: ele era capaz de transformar um simples esboço num desenho melhor e totalmente diferente. Acrescentava detalhes, corrigia falhas de anatomia etc.

O sonho dele era desenhar super-heróis para o mercado norte-americano. Em meados da década de 1990,por meio do estúdio Art & Comics, que agenciava desenhistas brasileiros para trabalharem para as editoras norte-americanas (na verdade, o agenciamento mesmo era feito por uma empresa norte-americana chamada Glass House Studios), ele chegou a desenhar páginas de uma edição de Iron Man  (Homem de Ferro) e os dois últimos números de  Ravage, o herói criado por Stan Lee para o Universo 2099.

A edição de Iron Man desenhada pelo Tetelli foi a de número 321, publicada em outubro de 1995. O Tetelli dividiu a arte dessa edição com o desenhista Heitor Oliveira e o arte-finalista Mark McKenna. O roteirista da história foi Terry Kavanagh.

As edições do Ravage desenhadas pelo Tetelli foram as de número 32 e 33, publicadas respectivamente em julho e agosto de 1995.As duas edições do Ravage foram escritas pelos roteiristas Pat Mills e Tony Skineer. Os arte-finalistas que fizeram o acabamento a nanquim sobre o lápis do Tetelli foram Greg Adams e Scott Kobish.

É verdade que o trabalho do Tetelli na edição de Iron Man está muito aquém do talento e da técnica dele. Mas, isso não aconteceu por desleixo ou despreparo do Tetelli.  Em primeiro lugar porque,na época, para atender às exigências do  editores gringos, o Tetelli teve que copiar os excessos típicos do estilo que Jim Lee e outros artistas estavam apresentando nos gibis da Image Comics: heróis com dentes rangendo; garotas peitudas com pernas absurdamente longas e muita poluição visual.

Se o Tetelli tivesse tido liberdade para trabalhar usando como referências os artistas que ele realmente admirava e não os artistas que estavam na moda nos anos 1990. o resultado teria sido melhor. Em segundo lugar, o Tetelli desenhou todas essas páginas varando madrugadas e tendo que levantar cedo para ir trabalhar na agência bancária onde ele é empregado há anos. Se já é difícil para muitos desenhistas profissionais, alguns com contrato de exclusividade para essa ou aquela editora,desenhar as páginas dentro do prazo e atender às exigências dos editores, imagina fazer tudo isso nas horas vagas, tendo que conciliar com um emprego diurno!

Tetelli  também ajudou o Manny Clark (nome artístico adotado pelo brasileiro Manoel Flor) a cumprir prazos para editoras como a Continuity,  trabalhando como ghost (desenhista-fantasma, pois apesar de fazer os desenhos, não assina o trabalho, tal qual  um fantasma que “faz,mas não aparece”). O dono da Continuity é nada mais, nada menos que Neal Adams (artista famoso por ter desenhado aquelas histórias do Lanterna Verde e Arqueiro Verde no início da década de 1970). Na mesma época, o Tetelli também produziu algumas ilustrações para  livros de RPG (Role Playing Game).

No entanto, infelizmente, o Tetelli nunca conseguiu um trabalho regular com desenho, e jamais pôde  ou quis largar o seu emprego de bancário para se dedicar exclusivamente aos quadrinhos e à ilustração. Para ele, largar o emprego no banco para tentar ganhar a vida como desenhista seria trocar o certo pelo incerto. E, em um país como este, ainda mais em tempos de crise econômica, a decisão mais sensata é permanecer no emprego que garante o pão de cada dia.

Em todo caso, os trabalhos que o Tetelli publicou pela Marvel foram uma grande vitória dele.  Em 1990, quando o nosso ex-professor do curso livre de quadrinhos que frequentávamos em São Bernardo, nos persuadiu a desenhar quadrinhos pornôs, o Tetelli chegou a desenhar alguns quadrinhos desse gênero. No entanto, ele não se sentiu bem com aquilo e chegou a um ponto em que o pai dele o convenceu a largar aquilo, que Deus não havia dado aquele talento para ele desperdiçar desenhando historinha de sacanagem. Nosso ex-professor não aceitou bem isso e disse ao Tetelli uma coisa do tipo: “Você está desperdiçando uma grande oportunidade profissional! Pare de sonhar com a Marvel ou a First Comics! Você nunca irá trabalhar para uma editora dos Estados Unidos!”

Depois que largou o ‘bico” de desenhar quadrinhos pornôs,o Tetelli chegou a desenhar quadrinhos de ficção científica para uma pequena editora que funcionava em São Paulo. Salvo engano, foram os desenhos para uma história escrita pelo roteirista e editor Dario Chaves. Outro trabalho que ele fez foi a arte-final para um “mangá” made in Brazil escrito pelo Sérgio Peixoto. Segundo o Peixoto, o Tetelli receberia o pagamento quando a história fosse publicada. Ao que parece, essa história em quadrinhos permanece inédita.

Tempos depois disso tudo, o Tetelli fez um curso de colorização digital, durante o qual ele produziu esse exercício em que aparece o super-herói favorito dele: o Hulk.

Alguns dos originais das páginas desenhadas pelo Tettelli foram vendidas em sites especializados em vender e leiloar artes originais,mas ele não recebeu um centavo sequer por isso. Ele mesmo nem  sabia  que os originais das paginas que desenhou estavam sendo vendidos na Internet. Detalhe: em dólares ou euros. Um exemplo é esta página que ele desenhou para a Continuity, a editora do Neal Adams.

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Quem sabe um dia a gente possa ter a sorte de encontrar a arte do Tetelli regularmente nas bancas e livrarias?

Cartunista alemão

Este blog ainda está bem longe de receber milhares de visitas, mas possui um público fiel e seleto. Desde que este blog foi criado em fins de maio de 2015, já foram 1075 visualizações (até o momento). Dessas visualizações, 830 foram de visitantes no Brasil. Depois do Brasil, o pais onde mais vezes este blog foi visualizado foram os Estados Unidos: 111 visualizações. As demais estão divididas entre Canadá, países da Europa, Ásia, Oceania, América Central e do Sul.

Entre os visitantes regulares deste blog está Karsten Schley, um cartunista alemão que mora em Hamburgo. Em uma comunidade que participo no Linkedin, o Karsten costuma curtir e elogiar alguns links que compartilhei para desenhos meus. No site do Schley há reproduções de vários cartuns dele. Alguns estão em inglês (que eu entendo), mas outros estão em alemão (que entendo nada tirando uma palavrinha ou outra). Dentre as influências dele,está o Gary Larson, cartunista americano criador da série de cartuns Far Side, que chegou a sair publicada no Brasil em duas coletâneas lançadas pela Cedibra, editora de Campinas que chegou a lançar muita coisa boa no Brasil durante as décadas de 1970 e de 1980.

MEAT

Quem quiser conhecer mais do trabalho do Schley, basta clicar no link a seguir:

http://www.schleycartoons.com/

Layout para adesivo de skate

Este é um esboço que fiz em 1993, pouco depois de eu ter concluído meu curso técnico em publicidade. Foi um dos desenhos que bolei para um colega meu, o artista gráfico, Eduardo Mangiapane, que pretendia montar um negócio de estampas para camisetas e acessórios para “skatistas”. Depois, soube que o Eduardo estudou na Escola Panamericana e Arte e adquiriu experiência como diretor de arte e diretor de criação em agências de publicidade.

Na verdade, foi uma boa oportunidade de trabalho que surgiu em um momento ruim. O Eduardo tinha um estúdio na Avenida Visconde de Inhaúma,o verdadeiro centro comercial de São Caetano, localizado na Vila Gerti. O que chamava a atenção era o letreiro na fachada do estúdio onde aparecia a palavra “Comics” com letras bem coloridas. Entrei no estúdio e me apresentei, nos demos bem de imediato. No entanto, conheci o Eduardo poucas semanas antes da minha família se mudar de São Caetano para Ribeirão Pires. Quando já estava morando em Ribeirão Pires, o Eduardo entrou em contato comigo: ele havia ligado para o telefone do serviço do meu irmão e deixado um recado.

O Eduardo pediu que eu criasse layouts que seriam finalizados por ele para serem aproveitados em estampas e adesivos. Criei alguns e ele me pagou no ato. No entanto, o Eduardo estava com dificuldade para manter o estúdio dele, pois havia contas a pagar, dívidas, clientes devendo pagamento etc. Depois disso, perdemos contato.

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Anos 1990: Spawn e Angela

Fiz este desenho do Spawn e da Angela em 1998 ou 1999, não estou bem certo. Era pra ter saído no Gibindex, mas acabou aparecendo primeiro no Fotolog. Mais uma vez: texto e desenho de Marco Túlio Vilela; letreiramento e colorização de Rubens Menezes. Outro desenho que foi feito com lápis em folha tamanho A3, finalizado com nanquim e canetas. O Rubens coloriu e inseriu o balão de fala após escanear uma xerox reduzida do original.

Dos meus desenhos que receberam colorização do Rubens, este e o do Superboy, que já foi postado aqui, são os mais datados. Quando se parodia heróis clássicos nas suas versões definitivas, as chances da paródia ser compreendida anos depois são maiores. No entanto, quando parodiamos modismos passageiros, as chances de que a paródia seja compreendida tempos depois são menores. Ou seja: o Super-Homem e o Batman, ambos criados no final dos anos 1930, permanecem mais atuais do que muita coisa que surgiu nos anos 1990.

Quando fiz este cartum, em meados dos anos 1990, o Spawn de Todd McFarlane estava entre os gibis mais vendidos nos Estados Unidos, chegando a ser publicado no Brasil pela Abril. Como é possível perceber,o visual do Spawn é uma mistura de Homem-Aranha, Batman e Motoqueiro Fantasma com uma origem que lembra o Espectro da DC Comics.  Na época, Angela era uma personagem recorrente nas HQs do Spawn, chegando a ganhar uma minissérie própria. No entanto, a angelical guerreira caçadora de demônios foi alvo de uma disputa judicial entre seu criador, o escritor Neil Gaiman, e o  editor e criador de Spawn, o desenhista Todd McFarlane. A disputa foi ganha por Gaiman, que depois  vendeu os direitos de sua criação para a Marvel. Em sua nova versão, Angela é filha de Odin e irmã de Thor e Loki.

Spawn