O melhor professor de desenho

Em 1991 ou 1992, não tenho certeza, eu fui assistir a uma premiação na Gibiteca Henfil de São Paulo, quando ela ainda funcionava próxima à estação Vila Mariana do metrô. Salvo engano, foi em um sábado à tarde. Quanto à premiação que fui assistir, também tenho dúvidas se era uma edição do Prêmio HQMIX ou do Prêmio Angelo Agostini.

O que tenho certeza é que entre os premiados estavam o Laerte Coutinho, antes da transformação dele em “Mãe do Beiçola” (do seriado A Grande Família) , e o Márcio Nicolosi. O Laerte havia ganho pela segunda ou terceira vez consecutiva  o prêmio na categoria de melhor roteirista. O Nicolosi havia ganho o prêmio de melhor desenhista ou de melhor graphic novel nacional com a sua obra Fetichast.

logo_com_desenho

Fui lá com o meu “portfólio”. Eu era tão pentelho e inseguro que, em vez de levar apenas uma pasta com uns poucos trabalhos (somente os melhores ou menos piores), eu levava praticamente um arquivo inteiro de desenhos, esboços, roteiros etc. Na época,o Laerte estava arrasando com a revista Piratas do Tietê. Os roteiros eram incríveis! O traço dele era belíssimo, embora, desconfie que as histórias mais longas fossem desenhadas por um assistente com mais conhecimento em perspectiva e desenho de cenários. O Laerte mesclava influências diversas (tanto dos quadrinhos quanto do cinema, das artes plásticas, da literatura etc) e produzia algo novo em um humor que conseguia ser sutil e agressivo ao mesmo tempo. O Laerte sempre foi uma influência meio óbvia para mim,pois sempre desenhei caras narigudos, magros e de olhos arregalados.

Quando fui assistir à premiação, queria mostrar meus desenhos para o Laerte.Talvez, na esperança boba de ser convidado para ser seu assistente. Na fila de autógrafos, ele perguntava a cada um o que queria que ele desenhasse. Eu, com meus dezesseis ou dezessete anos, disse: “Desenha uma mina!” E ele: “Uma mina?”. E eu: “É, uma de cabelos bem compridos!” Na época, eu desenhava todas as mulheres com cabelos que lembravam os da Julia Roberts em Uma Linda Mulher. Acho que o Todd McFarlane fazia o mesmo quando desenhava a Mary Jane nos quadrinhos do Homem-Aranha.

Mostrei rapidamente meus desenhos para o Laerte que foi bastante gentil, apesar da tietagem da multidão que se reuniu ao seu redor. Um dos desenhos que mostrei para ele era um exercício com bico-de-pena que havia feito, e que, durante muito tempo, foi minha melhor arte-final: era uma cópia de uma ilustração do John Tenniel para a edição original de Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas) onde apareciam o Chapeleiro Louco, a Alice e um coelho. O Chapeleiro Louco e o coelho eu procurei deixar o mais parecido possível com a ilustração do Tenniel. A Alice eu fiz no meu próprio estilo e fiz ela mais velha e com cara de ninfeta. Tinha um orgulho danado das hachuras que tinha feito com bico de pena. Aí o Laerte viu aquilo e disse: “Hum! Você copiou do Tenniel!” Depois ele pediu licença para todo mundo,pois ia conceder uma entrevista para uma revista ou fanzine. O Laerte foi educado comigo, mas não ficou impressionado com os meus desenhos.

Quem acabou vendo com mais atenção o meus desenhos e me disse muitas palavras encorajadoras foi justamente o Márcio Nicolosi. Eu conhecia o trabalho dele nos gibis da turma da Mônica que acompanhei dos meus sete até os meus nove anos de idade, antes de trocá-los por MAD, Asterix e super-heróis. As histórias da Turma da Mônica desenhadas pelo Nicolosi eram do final dos anos 1970, mas, eu as conhecia pelas republicações em almanaques nos anos 1980 e por gibis usados que me chegaram em mãos. Não sabia qual era o nome do desenhista daquelas histórias (pois aparecia somente a assinatura do Maurício),mas percebia que ele tinha um traço mais dinâmico,mais expressivo, que sugeria movimento, quase um desenho animado.

O Nicolosi foi extremamente gentil e atencioso comigo. Hoje ainda me surpreendo que um artista com tanto talento e habilidade técnica pudesse ser tão modesto e afável. Ele tinha visto umas caricaturas que havia feito de bandas de rock dos anos 1960, em especial, uma dos músicos do The Who, e começamos a falar sobre Beatles, Stones etc.

Ele me convidou a conhecer o estúdio do Maurício de Sousa, que funcionava na Rua do Curtume, no bairro da Lapa.  Para ir lá, bastava eu pegar o trem da estação de Utinga, que era próxima à Vila Barcelona,onde eu morava em São Caetano do Sul. Naquela época não havia o trem espanhol, eram uns trens menos confortáveis, cheios de camelôs e as estações do Brás e da Luz eram mais sujas e caóticas do que são hoje, mas, depois que passava da Luz, em alguns horários, ficava relativamente bem menos lotado quando chegava à Lapa. Na primeira vez que fui ao estúdio, era um final de tarde (foi um terror para ir e voltar). Cheguei na recepção e disse que tinha uma entrevista com o Marcio Nicolosi. A recepcionista respondeu: “Quem? Não conheço ninguém aqui com esse nome!’. Aí eu o descrevi: “É um desenhista que usa um boné parecido com o vocalista da banda AC/DC.” Então ela se lembrou: “Ah! Você está falando do Zé Márcio!” Sim eram a mesma pessoa! No estúdio, todo mundo conhecia o Márcio Nicolosi, ou José Márcio Nicolosi por “Zé Márcio”.

Cada visita ao estúdio era uma aula de desenho com o Zé Márcio. Ele me arranjou model sheets das personagens (naquela época não tinha internet, então imagina a emoção que era conseguir colocar nas mãos um material daqueles).  Aí eu ia pra casa, ficava copiando os desenhos, tentando fazer cópias exatas de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. Tempos depois, levava para o Zé Márcio ver. Ele pegava um lápis vermelho e com paciência e muito didatismo fazia as correções e apontava os meus erros. Dava conselhos do tipo: “As expressões faciais estão boas,mas você errou nas proporções do corpo. O Cebolinha tem duas cabeças e meia de altura, não três cabeças de altura. Repare, as pernas dele são mais curtas.” ou “Não se preocupe tanto com os detalhes, por enquanto concentre-se na estrutura básica das figuras” ou ainda “Você fez um desenho do Bidu,por enquanto não se preocupe em aprender a desenhar o Bidu, se preocupe mais em aprender a desenhar a Mônica, o Cebolinha, o Cascão e a Magali que possuem corpos com a mesma estrutura básica.”

Hoje, percebo que o Zé Marcio foi o melhor professor de desenho que tive, ainda que de maneira informal. Pena que eu não fui o seu aluno mais dedicado, pois fui muito dispersivo, querendo fazer muitas coisas ao mesmo tempo, pequei pela falta de foco. Por intermédio dele, também consegui uma entrevista com o Maurício de Sousa e a Alice Keiko Takeda, a chefe de arte  e criação do estúdio. Como foi essa entrevista será tema de outra postagem. Infelizmente,para mim, depois que minha família se mudou de São Caetano para Ribeirão Pires, perdi o contato com o Zé Márcio.

Quem quiser conhecer mais do trabalho desse incrível desenhista, sugiro que visite o website dele. Basta clicar no link na imagem a seguir, um desenho incrível que ele fez parodiando a capa do álbum Abbey Road dos Beatles:

fab_four

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s