Proposta indecente ou o “Stan Lee de Utinga”

Na graphic novel O Sonhador (The Dreamer, no original),uma autobiografia propositadamente mal disfarçada do roteirista e desenhista Will Eisner, o protagonista apresenta seu portfólio a um cliente em potencial. Na verdade, o cliente é um mafioso e faz uma proposta indecente ao jovem aspirante a artista: oferece dinheiro para que o jovem desenhe paródias pornográficas de personagens famosos dos quadrinhos. O jovem precisa de dinheiro e quer ganhar a vida desenhando, mas ele acaba recusando. Ao ser fiel aos seus princípios, o jovem é demitido da gráfica onde trabalhava, pois seu patrão esperava receber dinheiro do mafioso para imprimir os quadrinhos pornográficos. Detalhe: os EUA ainda estavam se recuperando da Grande Depressão iniciada em 1929 com a quebra da bolsa de valores de Nova York!

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Os tais quadrinhos pornográficos mencionados na graphic novel ficaram conhecidos pelo apelido de Tijuana Bibles e inspiraram  os famosos “catecismos” de Carlos Zéfiro no Brasil. Eram quadrinhos toscamente desenhados, distribuídos clandestinamente e que envolviam cenas de sexo entre personagens como Popeye e Olívia Palito. Até atrizes famosas do cinema da época eram caricaturadas nessas cenas.

Pois bem, passei por situação semelhante à ocorrida com o protagonista da graphic novel de Eisner. O que lamento é que não tive a mesma coragem ou a firmeza de caráter para recusar o trabalho. Vou compartilhar esta história apenas para que sirva de conselho ou de alerta para os jovens. Alertá-los para que não se deixem vender por migalhas, para que não abram mão de seus princípios. Uma oportunidade ruim equivale a nenhuma oportunidade. Tenha paciência, pois oportunidades melhores aparecerão na hora e locais certos. Tenha fé em Deus, pois Ele é bem melhor conselheiro que qualquer pessoa que se apresente como “o generoso descobridor de novos talentos que está oferecendo uma oportunidade única na vida”.

Em meados de 1990, eu estava cursando o colegial, tinha uns quinze para dezesseis anos,quando recebi um recado de um vizinho:o sujeito que havia sido meu professor em um curso livre de histórias em quadrinhos bem picareta que eu havia frequentado em São Bernardo havia telefonado me procurando. Ele também ligou para outro ex-aluno do curso. Esse professor se apresentava como “desenhista da Editora Abril”. Na verdade, ele só havia feito a arte-final de algumas histórias para um estúdio que fornecia quadrinhos infantis para a Abril. De resto, ele tomava conta de um boteco em Utinga, divisa de Santo André com São Caetano.Quanto aos quadrinhos, ele fazia roteiros e, às vezes, desenhos para quadrinhos de terror e pornôs publicados por editoras nanicas. E, diga-se, de passagem, eram uns 10% de quadrinhos de terror (que também eram um horror) e uns 90% de pornôs que ele chamava eufemisticamente  de “eróticos”.

Fomos procurá-lo na escola de desenho onde o tal sujeito trabalhava.Daí, fomos ao estúdio dele. O tal do estúdio funcionava nos fundos do boteco. Além do boteco, a principal renda dele vinha do aluguel pago por migrantes nordestinos que moravam num tipo de cortiço. Tinha também uma cabra que andava solta e que, às vezes, quando a porta do estúdio estava entreaberta, entrava e comia os papéis. Costumo dizer que essa cabra era a”editora de arte”, o problema é que o material que a cabra “aprovava”, também era devorado por ela. O tal do “desenhista da Editora Abril” também estava montando sua própria escola de desenho, contratando desenhistas melhores que ele para lecionar nos cursos.Anos depois, a tal da escola cresceu e até passou a lançar apostilas próprias para serem vendidas em bancas de jornais.

Aí vieram as propostas. Ele propôs que eu fizesse roteiros para um novo gibi infantil que estava sendo lançado, uma página de cartuns de humor negro para um novo gibi de terror e, que eu e o meu colega, que era bem melhor desenhista do que eu, que desenhássemos quadrinhos “eróticos”. Meu colega e eu não gostamos da proposta,mas aí o tal “desenhista da Editora Abril” começou a insistir com racionalizações. Disse que seria uma oportunidade para aperfeiçoarmos nossos desenhos, pois o grau de exigência técnica para quadrinhos “eróticos” (leia-se uns “catecismos” bem vagabundos) era mais baixo, seria uma oportunidade para nos tornarmos conhecidos entre os editores. Eu até falei: “Não seria melhor assinar com pseudônimo?” E aí, o grande “profissional” disse que não, que era importante que assinássemos com nossos nomes verdadeiros, pois, pasmem, seria melhor para termos um portfólio para apresentarmos à grandes editoras.

Como na época, eu só estudava, queria trabalhar na área de quadrinhos e precisava de uma grana acabei topando. Só não informei minha mãe dos detalhes do tipo de quadrinho que estávamos fazendo. Meu colega acabou topando,pois seria uma grana extra para complementar o salário que ele recebia como office boy no banco onde ele trabalhava.

Eu trabalhei lá por uns dois meses mais ou menos. Sem carteira assinada, sem contrato. Na férias escolares de meio de ano, passei a ir lá diariamente. Recebia MEIO salário mínimo  da época para visitar as editoras, fazendo papel de office boy durante meio horário e recebia uma merreca  extra por trabalhos publicados. No expediente de algumas das revistas produzidas pelo estúdio aparecia meu nome, “Marco Túlio”, logo abaixo do meu suposto cargo, “Assistente de Arte”.

Os tais dos quadrinhos “eróticos” eram reciclagens do lixo já publicado por outras editoras. Páginas de outros “catecismos” eram decalcadas ou xerocadas e recebiam novos retoques. Como os quadrinhos eram em preto e branco mesmo, bastava usar nanquim ou guache branco para transformar uma loira em morena e vice-versa. Não tinha Photoshop e nem Corel Draw. Muitas vezes, roteiros já publicados por outras editoras eram reapresentados com layouts novos. Por exemplo, uma história já publicada com seis quadros por página,mais ou menos, era transformada numa história com um ou no máximo dois quadros por página.

Quanto a tal página de humor para o gibi de terror, o “Stan Lee de Utinga” mandou que umas piadas velhas fossem redesenhadas por mim. As piadas que ele selecionou eram todas horríveis, de gosto duvidoso, tinha até piada racista! E eram piadas já publicadas,cujo roteirista original sequer foi creditado. Pra piorar, os desenhos que fiz ficaram bem crus, uma merda publicada em uma revista de merda! Anos depois, encontrei vários encalhes desse gibi de terror num sebo em Santo André. Fiquei com vontade de comprar todos os exemplares e colocá-los em uma fogueira.

Quanto aos roteiros para o gibi infantil, apresentei uma proposta, ele propôs uma reformulação, reformulei, foi publicado, mas não recebi crédito pelo roteiro,uma historinha de quatro ou cinco páginas, que foi desenhada por ele. Por uma razão misteriosa, o tal “Stan Lee de Utinga” colocou o nome da noiva dele no roteiro e o meu nome nos desenhos!

No final, meu pai, com sua sabedoria, me aconselhou a largar o trabalho naquele lugar. O tal editor não gostou e me disse um monte, disse que sem a ajuda dele eu não chegaria a lugar algum, que eu estava sendo um babaca em não querer trabalhar para ele. Na verdade, eu fui um babaca em ter aceitado trabalhar para ele. Depois, ele teve uma conversa parecida com meu colega, que também seguiu o conselho dos pais e largou aquele troço de ficar desenhando historinha de sacanagem.

O saldo disso tudo,tantos anos depois? De certa forma, continuei na área editorial, não em quadrinhos, mas na área de livros didáticos, trabalhando para empresas respeitáveis e produzindo conteúdo de melhor qualidade. Quanto aos quadrinhos, eles continuaram fazendo parte da minha vida, pois me concentrei na área de pequisa acadêmica e escrevi artigos publicados em livros e publicações respeitadas. Quanto ao meu colega, , ele chegou a desenhar quadrinhos para editoras americanas como a Marvel e ilustrações para livros de RPG. Tanto eu quanto ele conseguimos nos sair bem mesmo sem a ajuda “valiosa” do “generoso editor”.

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