Aprendendo com os mestres

Por volta de abril de 2003, após trabalhar cerca de dois anos e meio na produção de uma coleção de livros didáticos, fui demitido. Para essa coleção, escrevi textos complementares para os capítulos, elaborei propostas de atividades para os alunos, redigi o manual de professor, escrevi resenhas de filmes sugeridos para serem trabalhados em sala de aula etc. Ajudei até na escolha de ilustrações e na redação de legendas. Colaborei em todos os oito volumes da coleção,ou seja, tanto os quatro volumes dirigidos ao alunos do sexto ao nono ano do ensino fundamental, quanto nos quatro respectivos manuais do professor que acompanhavam cada volume.

Tempos depois, descobri que até alguns textos meus, que não haviam sido publicados, acabaram sendo aproveitados em outra coleção do mesmo autor, mas dirigida ao ensino médio. Por exemplo, um box  sobre os Beatles e os Rolling Stones para completar um capítulo sobre os movimentos estudantis e de contracultura nos anos 1960.

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As promessas de meu antigo patrão, o autor dessas coleções, de que eu seria indicado para algum cargo na editora que publicou essas coleções ficaram só nisso,ou seja, não passaram de promessas. Não pretendo aqui me “vingar”, até porque cometi um grande erro: esperar demais de outra pessoa. É claro que eu me senti como Jack Kirby, co-criador do Incrível Hulk, do Quarteto Fantástico e de outros super-heróis deve ter se sentido em relação a Stan Lee, que acabou levando a maioria dos créditos. Às vezes, cobramos muito dos outros e somos indulgentes em relação a nós mesmos.Além disso, apesar do meu antigo patrão ter me dispensado, sempre fui grato por tudo que me ensinou durante o tempo em que trabalhei para ele. É muito raro encontrarmos alguém que esteja disposto a nos ensinar um ofício, na maioria das vezes, os empregadores preferem contratar profissionais que já estejam prontos, que tenham experiência comprovada.

Como dizem, quando uma porta se fecha, outras se abrem. Assim, enquanto ainda estava recebendo parcelas do seguro-desemprego, comecei a enviar currículos para editoras de livros didáticos. Pelo que me lembro,naquele ano, nenhuma delas sequer me chamou para uma entrevista. No entanto, uma dessas editoras, a maior do ramo, diga-se de passagem, encaminhou meu currículo para outro autor que estava precisando de ajuda na nova edição de uma coleção de livros didáticos para o ensino médio. Esse outro autor me ligou e marcamos de nos reunir na biblioteca do prédio de História e Geografia do campus da USP no Butantã. Acabei ajudando em duas atividades de dois capítulos, algo bem breve e pontual. Quase dois anos depois, ele pediu ajuda em outra coleção, elaborei algumas atividades, mas, aí nesse momento, estava priorizando minhas aulas para turmas do ensino fundamental, pois havia acabado de assumir um cargo de professor efetivo em um concurso que prestei ainda em 2003.  Tempos depois, fiz um outro trabalho para ele. na hora de me pagar, ele me disse “Você pediu muito pouco e eu também não tenho como te pagar bem. Já sei! Vou conversar com o pessoal da editora, eles podem pagar bem mais do que eu te pagaria!”. E foi o que aconteceu, a editora me pagou, recebi bem mais do que esperava e complementei minha renda naquele mês.

Esse outro autor também era um professor experiente e me forneceu dicas valiosas de como ensinar História para adolescentes. Me contou sobre como sua primeira coleção de livros didáticos havia nascido a partir de uma apostila que ele havia elaborado sozinho para os alunos de um colégio particular. Me contou também sobre como essa apostila custou muitas horas de trabalho nos finais de semana. Nos tornamos bons amigos e ele ainda me indicou para um trabalho freelance para outra editora.

Ambos os autores para quem trabalhei, estão entre os melhores do ramo. O que significa que tive o privilégio de conviver e aprender  algo com profissionais competentes, com muito mais conhecimento do que eu.

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