Resenhas de livros sobre quadrinhos

Hoje estou postando três resenhas minhas que foram originalmente publicadas na Agaquê, a revista eletrônica do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.  A primeira resenha foi publicada em janeiro de 1999, a segunda em julho de 1999 e a terceira em novembro de 2000. Quando as escrevi ainda era estudante de graduação e duas delas eu apresentei como amostras do meu trabalho e me ajudaram a conseguir um emprego como assistente do Professor Alfredo Boulos Junior, para quem trabalhei na elaboração de uma coleção de livros didáticos.

Para quem não conhece o trabalho do Núcleo , que é coordenado pelo Professor Doutor Waldomiro Vergueiro, um dos maiores estudiosos das Histórias em quadrinhos no Brasil, sugiro visitar o site do NPHQ:

http://www.eca.usp.br/gibiusp/agaque_eletronica.asp

SABIN, Roger. Comics, comix and graphic novels: a history of comic art.
London : Phaidon Press, 1996. 240 p. ISBN: 0 7148 3008 9


Você está cansado de ler livros em que a história dos quadrinhos terminava no comecinho da década de 1980, quando muito, e excluía todas as criações mais recentes, como Watchmen ou Spawn, por exemplo? Pois então a boa pedida é Comics, comix and graphic novels — a history of comic art, de Roger Sabin.
Trata-se basicamente de uma história das Histórias em Quadrinhos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, mas o autor, crítico de arte londrino e professor no Central St Martin’s College of Art, também faz rápidos comentários sobre a atenção (ou desatenção) recebida, pelas edições em inglês, de alguns quadrinhos produzidos no Japão e na Europa continental.
No geral, o livro se mostra bastante atualizado e abrangente e é um prato cheio, por exemplo, para quem se interessa pelo quadrinho underground e alternativo. Essa, aliás, é a especialidade de Sabin, que, em parceira com Martin Baker, já escreveu Adult comics: an introduction, outro livro sobre o assunto. Comics, comix and graphic novels também é uma das poucas obras que comenta a nova onda de quadrinhos independentes americanos, representada por autores como Peter Bagge (Hate) e Dan Clowes (Eightball). Além disso, talvez seja a única a relatar a curiosa trajetória da Viz (uma espécie de Casseta Popular inglesa), que começou com uma tiragem de 150 exemplares e, pouco a pouco, ultrapassou a marca de 1 milhão de exemplares.
O livro não vai decepcionar os fãs de super-heróis, pois é atualizado o bastante para tratar do surgimento da Image Comics, editora que revolucionou o mercado com suas revistas coloridas por computador. Numa perspectiva mais “séria”, o autor também toca alguns pontos polêmicos: a censura, o racismo, o sexismo e o fato de que muitos criadores não usufruíram as fortunas criadas em torno de seus trabalhos.
Vale ressaltar que Sabin não se propõe a catalogar nem a citar o maior número possível de personagens ou de criadores. Prefere, isto sim, fazer uma análise geral de cada um dos principais gêneros e mencionar apenas os nomes mais representativos. As únicas omissões graves do livro dizem respeito às tiras de jornais distribuídas via syndicates. É de estranhar que Calvin, de Bill Watterson, e Doonesbury, de Garry Trudeau, por exemplo, sequer sejam citados. Mas, no que se refere às histórias em quadrinhos em forma de comic book ou graphic novel, o livro não deixa nada a desejar.

Além de discutir o papel dos quadrinhos como arte e meio de comunicação, Sabin jamais esquece que eles são, antes de mais nada, uma indústria. Nessa linha, o autor analisa as tendências de mercado e as estratégias comerciais adotadas pelas editoras. Trata-se, mais uma vez, de uma abordagem rara em outras obras do gênero (outro ponto bastante positivo é que, ao final de cada capítulo, há um conjunto de notas com observações e fontes bibliográficas, coisa que também não costumamos encontrar por aí).

Mesmo que você não concorde com muitas das opiniões do autor ou até o ache um pouco pretensioso em alguns momentos, Comics, Comix and Graphic Novels constitui-se em boa fonte de referência para pesquisadores e aficcionados. E com mais um diferencial: o belo projeto gráfico que caracteriza todas as publicações da Phaidon.

CHELSEA, David. Perspective! for comic book artists: how to achieve a professional look in your artwork . New York : Watson-Guptill Publications, 1997. 176 p. ISBN 0-8230-0567-4 US$19.95

Imagine uma história do Homem-Aranha onde o nosso herói não apareça saltando ou se balançando entre os prédios e arranha-céus de Nova Iorque. Impossível, a não ser que ele tenha sido arrancado de seu ambiente, ou, até, que o desenhista tenha se esquecido de acrescentar os cenários. Esse exemplo serve para mostrar a importância do conhecimento sobre perspectiva, que torna possível ao artista desenhar, nos mais diversos ângulos, cenários de grandes metrópoles ou um simples cômodo mobiliado. Por isso, um livro como Perspective! for comic book artists: how to achieve a professional look in your artwork , do cartunista americano David Chelsea, é mais do que bem-vindo.

Apesar de desconhecido no Brasil, o autor é um desenhista experiente, tendo colaborado em diversas publicações como, por exemplo, o New York Times , a Reader’s Digest (mais conhecida por aqui como Seleções) e Spy. Além disso, produz caricaturas para o New York Observer e é autor de duas graphic-novels autobiográficas, David Chelsea in Love Welcome to the Zone .

O livro foi criado para atender às necessidades específicas dos desenhistas de quadrinhos que, em seus trabalhos, precisam desenhar bem e rapidamente qualquer coisa pedida em um roteiro, mas, na maioria das vezes, não dispõem de tempo e nem de referências. Não é à toa, como o próprio Chelsea menciona na página de agradecimentos, que boa parte dos desenhos de fundos e cenários nos quadrinhos seja feita, na verdade, por assistentes anônimos – e que o próprio livro dele se inclui nesse caso. Ele agradece a ajuda de seus três assistentes David Kidd, Milan Erceg e Tom Herman, cujo resultado final, diga-se de passagem, é belíssimo.

Perspective! for comic book artists não irá decepcionar tanto os iniciantes no assunto como os profissionais em busca de referência, pois não se enquadra nem entre os manuais que tratam o tema de maneira vaga e superficial, como um mero apêndice, nem entre as obras técnicas, feitas para arquitetos e engenheiros, e que fazem o assunto parecer um bicho de sete cabeças para os leigos.

O mais interessante é a forma que Chelsea escolheu para tratar do assunto: na própria forma de uma história em quadrinhos. Nada mais apropriado, se considerarmos o público-alvo. A inspiração, é claro, como o próprio Chelsea admite, veio do aclamado Understanding Comics (no Brasil,Desvendando os Quadrinhos ) de Scott McCloud . Essa escolha, além de tornar o ensino de perspectiva mais claro e objetivo (sem falar em mais divertido), ajuda a comprovar as teorias de McCloud sobre o potencial dos quadrinhos, com diferentes finalidades.

O próprio Chelsea aparece como protagonista da história, dando aulas particulares para Mugg, um personagem criado especialmente para o livro, no “papel” do aluno ignorante. Além de render algumas das passagens mais engraçadas do livro, Mugg com certeza foi criado para que muitos dos leitores se identificassem com ele. A exemplo do livro de McCloud, Chelsea também termina prometendo uma continuação. Tomara que saia logo.

NYBERG, Amy Kiste. Seal of approval: the history of the comics code . Jackson : University Press of Mississipi, 1998. ISBN 0-87805-974-1 (alk. Paper.) – ISBN 0-87805-975-X (pbk.: alk. Paper)
Qualquer pretenso pesquisador ou historiador dos quadrinhos já ouviu falar alguma coisa sobre os fatos que culminaram na criação do Comics Code , o código de ética dos quadrinhos americanos (que também ganhou o seu carbono tupiniquim alguns anos depois). Nos Estados Unidos, em meados da década de 1950, um psiquiatra austríaco escreveu um livro chamado The Seduction of the Innocent ( A Sedução do Inocente ), no qual afirmava que os quadrinhos seriam uma das principais causas da crescente delinqüência juvenil; uma verdadeira “caça às bruxas” passa então a ser perpetrada por grupos de pais, educadores, religiosos e políticos contra as editoras de quadrinhos; para escapar de uma censura oficial, as grandes editoras criam uma forma de auto-censura para evitar novas dores de cabeça (e, para “unir o útil ao agradável”, tirar do caminho concorrentes como a Entertainment Comics, a E.C, famosa pelos seus quadrinhos de terror e suspense). Pois essa mesma história é contada por Amy Kiste Nyberg, professora do Departamento de Comunicação da Seton Hall University , em seu livro, Seal of approval: the history of the comics code . Porém, com uma grande diferença a seu favor: foge totalmente do maniqueísmo e da superficialidade que quase sempre caracterizaram as reconstituições desse episódio.
Os editores de quadrinhos são retratados como aquilo que realmente eram, ou seja, empresários querendo vender seu peixe em um mercado altamente competitivo, e não como pobres vítimas ingênuas e indefesas lutando pela liberdade de expressão em uma América puritana. Wertham, apesar de bastante criticado pela autora, também não é mostrado como um fanático insano; pelo contrário, ela nos lembra que ele possuía sólida formação em algumas das mais conceituadas universidades da Europa e um currículo profissional dos mais respeitáveis (foi um dos primeiros a defender atendimento e acompanhamento psiquiátrico gratuitos para presidiários e famílias carentes). Mais importante: ela também não poupa críticas aos senadores que organizaram uma C.P.I eleitoreira contra os editores de quadrinhos, mas os acusa de vaidosos e de oportunistas.
O livro, ao enfatizar os bastidores da indústria dos quadrinhos e o contexto sócio-político onde os fatos ocorreram (em pleno auge da paranóia comunista, em um país conhecido pela contradição de possuir uma cultura puritana e moralista convivendo lado a lado com um discurso democrático), acaba nos fornecendo um rico painel de informações, levantando questões tão diversas quanto censura versus liberdade de expressão; influência dos meios de comunicação sobre a realidade social; sensacionalismo da imprensa; valores morais defendidos por grupos conservadores, entre outros aspectos. E ao contextualizar os fatos, a autora nos lembra as diferenças entre o mercado de quadrinhos nos Estados Unidos daquela época e o mercado de quadrinhos nos Estados Unidos de hoje. Enquanto, nos dias atuais, ele se apresenta extremamente segmentado e o público é composto quase que inteiramente de adolescentes e adultos aficionados (majoritariamente do sexo masculino) que compram suas revistas em lojas especializadas, naquela época o mercado era massificado e formado por crianças de ambos os sexos, que compravam as revistas em jornaleiros ou lojinhas de conveniência. E isso nos ajuda a entender melhor porque os quadrinhos eram encarados com tanta preocupação por certos pais e educadores.
Pelo seu viés, o livro, no entanto, pode decepcionar alguns. Pois trata-se de uma abordagem mais sociológica e política, ao contrário de uma história estética dos quadrinhos em si. Além disso, possui apenas algumas poucas (mas bem escolhidas a título de exemplos) ilustrações, entre as quais uma história em quadrinhos completa de sete páginas intitulada The Whipping , publicada originalmente na revista Shock SuspenStories #13 da E.C. A história trata dos problemas do racismo e da xenofobia, e gerou uma enorme polêmica. Por si só, já valeria o livro.
Além disso tudo, o livro também publica na íntegra as diferentes versões do código, criado pela Comics Magazine Association of America em 1954 e alterado apenas duas vezes, uma em 1971, e a outra em 1989, além de um protótipo do código criado pela então Association of Comics Magazine Publishers , em 1948.

É um livro fundamental tanto para pessoas do ramo quadrinístico quanto para estudantes de comunicação, educadores, psicólogos, sociólogos, historiadores e acadêmicos em geral. Nada mais atual em tempos de discussão sobre a possibilidade (ou não) de se controlar a mídia (incluindo a Internet) e o aumento generalizado da violência.

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