Meu pai, os quadrinhos e os super-heróis

Este é o primeiro Dia dos Pais sem o meu pai. Quero dizer, sem a presença física dele, pois, acredito eu, o espírito dele vive agora em um universo bem melhor do que este.

Recebi mensagens de amigos elogiando a homenagem que fiz ao meu pai em uma postagem anterior.  Em uma delas, o Professor Divalte Garcia Figueira, autor de livros didáticos de grande sucesso, que conhecia meu pai pelo Facebook,comentou: “Que interessante saber que ele não era advogado. Era um autodidata, o que aumenta seus méritos, pois sempre notei que ele escrevia muito corretamente”. Em outra mensagem, enviada pelo Professor Doutor Gazy Andraus, que também é autor de quadrinhos alternativos, ele disse que achou uma “bela e muito interessante homenagem” ao meu pai e completou: “E ele ainda gostava do Demolidor!”

Na verdade, meu pai não era um fã de quadrinhos de super-heróis, embora apreciasse bons desenhos. Ele também cresceu lendo quadrinhos, pois para as crianças da geração dele, os gibis exerciam fascinação semelhante à que os videogames exercem nas gerações atuais. Sem falar nos seriados que eram exibidos nas matinês, em especial Os perigos de Nyoka, uma das fontes de  inspiração para o Spielberg na criação do Indiana Jones.  Mas, dos quadrinhos de super-heróis ele nunca gostou muito. A exceção era o Capitão América, que tinha aquele lado mais militar e o meu pai sempre gostou de histórias de guerra.  E o Capitão América que ele acompanhava era a versão original, escrita e desenhada por Jack Kirby com arte-final do Joe Simon, e que saía publicada no Globo Juvenil. Outra exceção era o Fantasma, que era um herói mascarado, mas não tinha superpoderes, que ele acompanhava não só nos quadrinhos, mas também em um seriado de rádio, o que era comum no Brasil de antes da chegada da televisão. Do Fantasma, ele dizia gostar dos roteiros de Lee Falk,mas não gostava dos desenhos do Wilson Mccoy e nem do Ray Moore. No que se referia aos desenhistas de quadrinhos, ele preferia o trabalho do Alex Raymond nas aventuras do detetive Rip Kirby, rebatizado no Brasil de Nick Holmes.

globo_juvenil

Quando garoto, meu pai preferia ler quadrinhos humorísticos. O caipira Ferdinando Buscapé  ( Lil Abner no original),criação do cartunista Al Capp,  era o favorito dele.

ferdinando

Dos quadrinhos de aventura, ele preferia os de guerra e de faroeste. Ou seja, heróis sem superpoderes (cowboys, soldados, pilotos de avião).  Seu interesse por assuntos militares, seja na vida real ou na ficção era muito grande. Ele próprio chegou a servir na FAB.

Quando adulto, os únicos quadrinhos que meu pai gostava de ler eram tiras de jornal e quadrinhos europeus como Asterix, Lucky Luke, Mágico Vento e os Túnicas Azuis. De modo geral, ele preferia ler não-ficção a ficção. Os hábitos de leitura dele influenciaram todos os filhos. Apesar das eternas dificuldades para pagar aluguel, crescemos numa casa com coleções de fascículos de  Conhecer, Tecnirama, Enciclopédia Disney, Os Bichos, História do Século XX etc.

Lembro-me que há uns dez anos mais ou menos, comentei com o meu pai sobre o Demolidor, um super-herói que era advogado na identidade secreta. Ele riu, dizendo que a maioria dos advogados, dentre os que ele conhecia, preferia que a criminalidade aumentasse, pois quanto mais bandidos,mais clientes teriam. Aí mostrei um gibi que mostrava o Demolidor e o Batman juntos. E ele gostou de uma frase do Demolidor na qual ele explicava para o Batman que a necessidade de punição e a chance de redenção não eram necessariamente excludentes.  Comentário dele: “Esse Matt Murdock é melhor que alguns advogados que conheço! Acho que dá pra aproveitar essa frase numa defesa que estou ajudando a escrever…”

demolidor_e_batman

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