O melhor professor de desenho

Em 1991 ou 1992, não tenho certeza, eu fui assistir a uma premiação na Gibiteca Henfil de São Paulo, quando ela ainda funcionava próxima à estação Vila Mariana do metrô. Salvo engano, foi em um sábado à tarde. Quanto à premiação que fui assistir, também tenho dúvidas se era uma edição do Prêmio HQMIX ou do Prêmio Angelo Agostini.

O que tenho certeza é que entre os premiados estavam o Laerte Coutinho, antes da transformação dele em “Mãe do Beiçola” (do seriado A Grande Família) , e o Márcio Nicolosi. O Laerte havia ganho pela segunda ou terceira vez consecutiva  o prêmio na categoria de melhor roteirista. O Nicolosi havia ganho o prêmio de melhor desenhista ou de melhor graphic novel nacional com a sua obra Fetichast.

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Fui lá com o meu “portfólio”. Eu era tão pentelho e inseguro que, em vez de levar apenas uma pasta com uns poucos trabalhos (somente os melhores ou menos piores), eu levava praticamente um arquivo inteiro de desenhos, esboços, roteiros etc. Na época,o Laerte estava arrasando com a revista Piratas do Tietê. Os roteiros eram incríveis! O traço dele era belíssimo, embora, desconfie que as histórias mais longas fossem desenhadas por um assistente com mais conhecimento em perspectiva e desenho de cenários. O Laerte mesclava influências diversas (tanto dos quadrinhos quanto do cinema, das artes plásticas, da literatura etc) e produzia algo novo em um humor que conseguia ser sutil e agressivo ao mesmo tempo. O Laerte sempre foi uma influência meio óbvia para mim,pois sempre desenhei caras narigudos, magros e de olhos arregalados.

Quando fui assistir à premiação, queria mostrar meus desenhos para o Laerte.Talvez, na esperança boba de ser convidado para ser seu assistente. Na fila de autógrafos, ele perguntava a cada um o que queria que ele desenhasse. Eu, com meus dezesseis ou dezessete anos, disse: “Desenha uma mina!” E ele: “Uma mina?”. E eu: “É, uma de cabelos bem compridos!” Na época, eu desenhava todas as mulheres com cabelos que lembravam os da Julia Roberts em Uma Linda Mulher. Acho que o Todd McFarlane fazia o mesmo quando desenhava a Mary Jane nos quadrinhos do Homem-Aranha.

Mostrei rapidamente meus desenhos para o Laerte que foi bastante gentil, apesar da tietagem da multidão que se reuniu ao seu redor. Um dos desenhos que mostrei para ele era um exercício com bico-de-pena que havia feito, e que, durante muito tempo, foi minha melhor arte-final: era uma cópia de uma ilustração do John Tenniel para a edição original de Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas) onde apareciam o Chapeleiro Louco, a Alice e um coelho. O Chapeleiro Louco e o coelho eu procurei deixar o mais parecido possível com a ilustração do Tenniel. A Alice eu fiz no meu próprio estilo e fiz ela mais velha e com cara de ninfeta. Tinha um orgulho danado das hachuras que tinha feito com bico de pena. Aí o Laerte viu aquilo e disse: “Hum! Você copiou do Tenniel!” Depois ele pediu licença para todo mundo,pois ia conceder uma entrevista para uma revista ou fanzine. O Laerte foi educado comigo, mas não ficou impressionado com os meus desenhos.

Quem acabou vendo com mais atenção o meus desenhos e me disse muitas palavras encorajadoras foi justamente o Márcio Nicolosi. Eu conhecia o trabalho dele nos gibis da turma da Mônica que acompanhei dos meus sete até os meus nove anos de idade, antes de trocá-los por MAD, Asterix e super-heróis. As histórias da Turma da Mônica desenhadas pelo Nicolosi eram do final dos anos 1970, mas, eu as conhecia pelas republicações em almanaques nos anos 1980 e por gibis usados que me chegaram em mãos. Não sabia qual era o nome do desenhista daquelas histórias (pois aparecia somente a assinatura do Maurício),mas percebia que ele tinha um traço mais dinâmico,mais expressivo, que sugeria movimento, quase um desenho animado.

O Nicolosi foi extremamente gentil e atencioso comigo. Hoje ainda me surpreendo que um artista com tanto talento e habilidade técnica pudesse ser tão modesto e afável. Ele tinha visto umas caricaturas que havia feito de bandas de rock dos anos 1960, em especial, uma dos músicos do The Who, e começamos a falar sobre Beatles, Stones etc.

Ele me convidou a conhecer o estúdio do Maurício de Sousa, que funcionava na Rua do Curtume, no bairro da Lapa.  Para ir lá, bastava eu pegar o trem da estação de Utinga, que era próxima à Vila Barcelona,onde eu morava em São Caetano do Sul. Naquela época não havia o trem espanhol, eram uns trens menos confortáveis, cheios de camelôs e as estações do Brás e da Luz eram mais sujas e caóticas do que são hoje, mas, depois que passava da Luz, em alguns horários, ficava relativamente bem menos lotado quando chegava à Lapa. Na primeira vez que fui ao estúdio, era um final de tarde (foi um terror para ir e voltar). Cheguei na recepção e disse que tinha uma entrevista com o Marcio Nicolosi. A recepcionista respondeu: “Quem? Não conheço ninguém aqui com esse nome!’. Aí eu o descrevi: “É um desenhista que usa um boné parecido com o vocalista da banda AC/DC.” Então ela se lembrou: “Ah! Você está falando do Zé Márcio!” Sim eram a mesma pessoa! No estúdio, todo mundo conhecia o Márcio Nicolosi, ou José Márcio Nicolosi por “Zé Márcio”.

Cada visita ao estúdio era uma aula de desenho com o Zé Márcio. Ele me arranjou model sheets das personagens (naquela época não tinha internet, então imagina a emoção que era conseguir colocar nas mãos um material daqueles).  Aí eu ia pra casa, ficava copiando os desenhos, tentando fazer cópias exatas de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. Tempos depois, levava para o Zé Márcio ver. Ele pegava um lápis vermelho e com paciência e muito didatismo fazia as correções e apontava os meus erros. Dava conselhos do tipo: “As expressões faciais estão boas,mas você errou nas proporções do corpo. O Cebolinha tem duas cabeças e meia de altura, não três cabeças de altura. Repare, as pernas dele são mais curtas.” ou “Não se preocupe tanto com os detalhes, por enquanto concentre-se na estrutura básica das figuras” ou ainda “Você fez um desenho do Bidu,por enquanto não se preocupe em aprender a desenhar o Bidu, se preocupe mais em aprender a desenhar a Mônica, o Cebolinha, o Cascão e a Magali que possuem corpos com a mesma estrutura básica.”

Hoje, percebo que o Zé Marcio foi o melhor professor de desenho que tive, ainda que de maneira informal. Pena que eu não fui o seu aluno mais dedicado, pois fui muito dispersivo, querendo fazer muitas coisas ao mesmo tempo, pequei pela falta de foco. Por intermédio dele, também consegui uma entrevista com o Maurício de Sousa e a Alice Keiko Takeda, a chefe de arte  e criação do estúdio. Como foi essa entrevista será tema de outra postagem. Infelizmente,para mim, depois que minha família se mudou de São Caetano para Ribeirão Pires, perdi o contato com o Zé Márcio.

Quem quiser conhecer mais do trabalho desse incrível desenhista, sugiro que visite o website dele. Basta clicar no link na imagem a seguir, um desenho incrível que ele fez parodiando a capa do álbum Abbey Road dos Beatles:

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Proposta indecente ou o “Stan Lee de Utinga”

Na graphic novel O Sonhador (The Dreamer, no original),uma autobiografia propositadamente mal disfarçada do roteirista e desenhista Will Eisner, o protagonista apresenta seu portfólio a um cliente em potencial. Na verdade, o cliente é um mafioso e faz uma proposta indecente ao jovem aspirante a artista: oferece dinheiro para que o jovem desenhe paródias pornográficas de personagens famosos dos quadrinhos. O jovem precisa de dinheiro e quer ganhar a vida desenhando, mas ele acaba recusando. Ao ser fiel aos seus princípios, o jovem é demitido da gráfica onde trabalhava, pois seu patrão esperava receber dinheiro do mafioso para imprimir os quadrinhos pornográficos. Detalhe: os EUA ainda estavam se recuperando da Grande Depressão iniciada em 1929 com a quebra da bolsa de valores de Nova York!

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Os tais quadrinhos pornográficos mencionados na graphic novel ficaram conhecidos pelo apelido de Tijuana Bibles e inspiraram  os famosos “catecismos” de Carlos Zéfiro no Brasil. Eram quadrinhos toscamente desenhados, distribuídos clandestinamente e que envolviam cenas de sexo entre personagens como Popeye e Olívia Palito. Até atrizes famosas do cinema da época eram caricaturadas nessas cenas.

Pois bem, passei por situação semelhante à ocorrida com o protagonista da graphic novel de Eisner. O que lamento é que não tive a mesma coragem ou a firmeza de caráter para recusar o trabalho. Vou compartilhar esta história apenas para que sirva de conselho ou de alerta para os jovens. Alertá-los para que não se deixem vender por migalhas, para que não abram mão de seus princípios. Uma oportunidade ruim equivale a nenhuma oportunidade. Tenha paciência, pois oportunidades melhores aparecerão na hora e locais certos. Tenha fé em Deus, pois Ele é bem melhor conselheiro que qualquer pessoa que se apresente como “o generoso descobridor de novos talentos que está oferecendo uma oportunidade única na vida”.

Em meados de 1990, eu estava cursando o colegial, tinha uns quinze para dezesseis anos,quando recebi um recado de um vizinho:o sujeito que havia sido meu professor em um curso livre de histórias em quadrinhos bem picareta que eu havia frequentado em São Bernardo havia telefonado me procurando. Ele também ligou para outro ex-aluno do curso. Esse professor se apresentava como “desenhista da Editora Abril”. Na verdade, ele só havia feito a arte-final de algumas histórias para um estúdio que fornecia quadrinhos infantis para a Abril. De resto, ele tomava conta de um boteco em Utinga, divisa de Santo André com São Caetano.Quanto aos quadrinhos, ele fazia roteiros e, às vezes, desenhos para quadrinhos de terror e pornôs publicados por editoras nanicas. E, diga-se, de passagem, eram uns 10% de quadrinhos de terror (que também eram um horror) e uns 90% de pornôs que ele chamava eufemisticamente  de “eróticos”.

Fomos procurá-lo na escola de desenho onde o tal sujeito trabalhava.Daí, fomos ao estúdio dele. O tal do estúdio funcionava nos fundos do boteco. Além do boteco, a principal renda dele vinha do aluguel pago por migrantes nordestinos que moravam num tipo de cortiço. Tinha também uma cabra que andava solta e que, às vezes, quando a porta do estúdio estava entreaberta, entrava e comia os papéis. Costumo dizer que essa cabra era a”editora de arte”, o problema é que o material que a cabra “aprovava”, também era devorado por ela. O tal do “desenhista da Editora Abril” também estava montando sua própria escola de desenho, contratando desenhistas melhores que ele para lecionar nos cursos.Anos depois, a tal da escola cresceu e até passou a lançar apostilas próprias para serem vendidas em bancas de jornais.

Aí vieram as propostas. Ele propôs que eu fizesse roteiros para um novo gibi infantil que estava sendo lançado, uma página de cartuns de humor negro para um novo gibi de terror e, que eu e o meu colega, que era bem melhor desenhista do que eu, que desenhássemos quadrinhos “eróticos”. Meu colega e eu não gostamos da proposta,mas aí o tal “desenhista da Editora Abril” começou a insistir com racionalizações. Disse que seria uma oportunidade para aperfeiçoarmos nossos desenhos, pois o grau de exigência técnica para quadrinhos “eróticos” (leia-se uns “catecismos” bem vagabundos) era mais baixo, seria uma oportunidade para nos tornarmos conhecidos entre os editores. Eu até falei: “Não seria melhor assinar com pseudônimo?” E aí, o grande “profissional” disse que não, que era importante que assinássemos com nossos nomes verdadeiros, pois, pasmem, seria melhor para termos um portfólio para apresentarmos à grandes editoras.

Como na época, eu só estudava, queria trabalhar na área de quadrinhos e precisava de uma grana acabei topando. Só não informei minha mãe dos detalhes do tipo de quadrinho que estávamos fazendo. Meu colega acabou topando,pois seria uma grana extra para complementar o salário que ele recebia como office boy no banco onde ele trabalhava.

Eu trabalhei lá por uns dois meses mais ou menos. Sem carteira assinada, sem contrato. Na férias escolares de meio de ano, passei a ir lá diariamente. Recebia MEIO salário mínimo  da época para visitar as editoras, fazendo papel de office boy durante meio horário e recebia uma merreca  extra por trabalhos publicados. No expediente de algumas das revistas produzidas pelo estúdio aparecia meu nome, “Marco Túlio”, logo abaixo do meu suposto cargo, “Assistente de Arte”.

Os tais dos quadrinhos “eróticos” eram reciclagens do lixo já publicado por outras editoras. Páginas de outros “catecismos” eram decalcadas ou xerocadas e recebiam novos retoques. Como os quadrinhos eram em preto e branco mesmo, bastava usar nanquim ou guache branco para transformar uma loira em morena e vice-versa. Não tinha Photoshop e nem Corel Draw. Muitas vezes, roteiros já publicados por outras editoras eram reapresentados com layouts novos. Por exemplo, uma história já publicada com seis quadros por página,mais ou menos, era transformada numa história com um ou no máximo dois quadros por página.

Quanto a tal página de humor para o gibi de terror, o “Stan Lee de Utinga” mandou que umas piadas velhas fossem redesenhadas por mim. As piadas que ele selecionou eram todas horríveis, de gosto duvidoso, tinha até piada racista! E eram piadas já publicadas,cujo roteirista original sequer foi creditado. Pra piorar, os desenhos que fiz ficaram bem crus, uma merda publicada em uma revista de merda! Anos depois, encontrei vários encalhes desse gibi de terror num sebo em Santo André. Fiquei com vontade de comprar todos os exemplares e colocá-los em uma fogueira.

Quanto aos roteiros para o gibi infantil, apresentei uma proposta, ele propôs uma reformulação, reformulei, foi publicado, mas não recebi crédito pelo roteiro,uma historinha de quatro ou cinco páginas, que foi desenhada por ele. Por uma razão misteriosa, o tal “Stan Lee de Utinga” colocou o nome da noiva dele no roteiro e o meu nome nos desenhos!

No final, meu pai, com sua sabedoria, me aconselhou a largar o trabalho naquele lugar. O tal editor não gostou e me disse um monte, disse que sem a ajuda dele eu não chegaria a lugar algum, que eu estava sendo um babaca em não querer trabalhar para ele. Na verdade, eu fui um babaca em ter aceitado trabalhar para ele. Depois, ele teve uma conversa parecida com meu colega, que também seguiu o conselho dos pais e largou aquele troço de ficar desenhando historinha de sacanagem.

O saldo disso tudo,tantos anos depois? De certa forma, continuei na área editorial, não em quadrinhos, mas na área de livros didáticos, trabalhando para empresas respeitáveis e produzindo conteúdo de melhor qualidade. Quanto aos quadrinhos, eles continuaram fazendo parte da minha vida, pois me concentrei na área de pequisa acadêmica e escrevi artigos publicados em livros e publicações respeitadas. Quanto ao meu colega, , ele chegou a desenhar quadrinhos para editoras americanas como a Marvel e ilustrações para livros de RPG. Tanto eu quanto ele conseguimos nos sair bem mesmo sem a ajuda “valiosa” do “generoso editor”.

Salões de Humor

Quando estava no colegial e ainda na faculdade, cheguei a mandar trabalhos para salões de humor. Devo ter tido trabalhos expostos em uns três ou quatro salões de humor. Nunca ganhei prêmio algum, pois aí seria esperar demais! Fazia uns cartuns ou charges bem em cima da hora, “nas coxas” mesmo! Desenhava tudo perto do último dia aceito pelo regulamento de cada salão para enviar pelo correio. Fazia aqueles trabalhos em papel cartão A3 que eram colocados em envelopes enormes.

Mas, ficava satisfeito quando recebia uma carta padrão informando que meu trabalho havia sido aceito pelo júri e que iria ser exposto entre tantos outros também classificados. Tenho até uns certificados ainda guardados. O mais antigo é da 2ª Exposição Nacional de  HQ de Santo André (que foi de 06 a 29 de setembro de 1991 no Paço Municipal). O mais recente, pro assim dizer, foi do 4º Salão Universitário de Humor de Piracicaba, realizado de 16 maio a 03 de junho de 1995 na Universidade Metodista de Piracicaba. Não tenho mais o original de nenhum desses trabalhos, O trabalho que foi exposto em Santo André era uma história em quadrinhos bem ruim de quatro páginas com uma arte porca, feita com caneta para retroprojetor. Os expostos em Piracicaba eram uns cartuns tentando imitar o humor da série Far Side, criada pelo cartunista americano Gary Larson. O único que ainda tenho é uma cópia xerocada, que aparece reproduzido aqui, de um cartum que foi selecionado para o 1º Salão Nacional de Humor de Jundiaí, realizado em outubro de 1991.

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Pessoalmente, não gosto do tipo de humor deste cartum. Pretensioso e com uma visão preconceituosa de intelectualóide da “esquerda caviar”.  Como se todo religioso fosse inculto ou ignorante! Como se todo evolucionista fosse uma pessoa mais “esclarecida” ou “tolerante”! Ou ignorando que, há pessoas, dentre as quais, kardecistas, budistas e rosacruzes, que conciliam numa boa o processo de evolução das espécies com uma vida espiritualizada.

Hoje, creio eu, foi justamente por causa disso que este trabalho foi selecionado. Raramente, você vê um cartum ou charge realmente engraçada entre os primeiros colocados de qualquer salão de humor realizado no Brasil. E é sempre humor de esquerda, carregado de patrulhamento ideológico, e mensagens cheias de “senso crítico”.

A maioria dos salões de humor é  realizada por prefeituras petistas. Dificilmente vão premiar uma charge que realmente ridicularize o Lula, mais fácil premiarem uma que o homenageie. Esse pessoal adora tirar sarro da falta de conhecimentos gerais da Carla Pérez, por exemplo, em Geografia ou Língua Portuguesa, mas vão te tachar de preconceituoso se você denunciar a ignorância ( e o orgulho da própria ignorância) do  “Führer de Garanhuns”.Tirar sarro de evangélico ou dos cristãos em geral? Ok! Mas, queria ver se eu tivesse tirado sarro dos umbandistas, por exemplo.

Sobre isso, um chargista veterano para quem escrevi , me respondeu numa mensagem enviada em janeiro de 2008:  “De fato são todos[os salões de humor] chapa-branca. A maioria deles com verbas deste governo de merda. O mercado de trabalho está difícil e criticando o  néscio-mor fica ainda pior. Minhas charges são publicadas em vários blogs independentes e de oposição ao  governo, e em alguns jornais idem. Como não vivo só das charges, (sou  arquiteto e professor universitário), exijo dos jornais total liberdade no espaço a mim reservado para a charge editorial. Espaço pelo qual me responsabilizo quanto ao teor dos desenhos, não cabendo aos jornais que as publicam qualquer tipo de processo e sim somente a mim. Colaborei com o Pasquim quando era de briga. Hoje até o Ziraldo virou chapa-branca.”

E bota “chapa-branca” nisso!Um colega de faculdade, bem esquerdista,  mandou uma charge  anti-Bush pro  finado Pasquim 21, uma tentativa anacrônica de repetir o sucesso do Pasquim original. A charge anti-Bush foi aprovada para publicação de imediato. Mas, quando esse mesmo colega mandou uma charge criticando os escândalos de corrupção envolvendo o PT, a charge foi recusada.  Ou seja, era um jornal de humor situacionista (?), que estava lá só para criticar a oposição e o “imperialismo estadunidense”.

Aprendendo com os mestres

Por volta de abril de 2003, após trabalhar cerca de dois anos e meio na produção de uma coleção de livros didáticos, fui demitido. Para essa coleção, escrevi textos complementares para os capítulos, elaborei propostas de atividades para os alunos, redigi o manual de professor, escrevi resenhas de filmes sugeridos para serem trabalhados em sala de aula etc. Ajudei até na escolha de ilustrações e na redação de legendas. Colaborei em todos os oito volumes da coleção,ou seja, tanto os quatro volumes dirigidos ao alunos do sexto ao nono ano do ensino fundamental, quanto nos quatro respectivos manuais do professor que acompanhavam cada volume.

Tempos depois, descobri que até alguns textos meus, que não haviam sido publicados, acabaram sendo aproveitados em outra coleção do mesmo autor, mas dirigida ao ensino médio. Por exemplo, um box  sobre os Beatles e os Rolling Stones para completar um capítulo sobre os movimentos estudantis e de contracultura nos anos 1960.

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As promessas de meu antigo patrão, o autor dessas coleções, de que eu seria indicado para algum cargo na editora que publicou essas coleções ficaram só nisso,ou seja, não passaram de promessas. Não pretendo aqui me “vingar”, até porque cometi um grande erro: esperar demais de outra pessoa. É claro que eu me senti como Jack Kirby, co-criador do Incrível Hulk, do Quarteto Fantástico e de outros super-heróis deve ter se sentido em relação a Stan Lee, que acabou levando a maioria dos créditos. Às vezes, cobramos muito dos outros e somos indulgentes em relação a nós mesmos.Além disso, apesar do meu antigo patrão ter me dispensado, sempre fui grato por tudo que me ensinou durante o tempo em que trabalhei para ele. É muito raro encontrarmos alguém que esteja disposto a nos ensinar um ofício, na maioria das vezes, os empregadores preferem contratar profissionais que já estejam prontos, que tenham experiência comprovada.

Como dizem, quando uma porta se fecha, outras se abrem. Assim, enquanto ainda estava recebendo parcelas do seguro-desemprego, comecei a enviar currículos para editoras de livros didáticos. Pelo que me lembro,naquele ano, nenhuma delas sequer me chamou para uma entrevista. No entanto, uma dessas editoras, a maior do ramo, diga-se de passagem, encaminhou meu currículo para outro autor que estava precisando de ajuda na nova edição de uma coleção de livros didáticos para o ensino médio. Esse outro autor me ligou e marcamos de nos reunir na biblioteca do prédio de História e Geografia do campus da USP no Butantã. Acabei ajudando em duas atividades de dois capítulos, algo bem breve e pontual. Quase dois anos depois, ele pediu ajuda em outra coleção, elaborei algumas atividades, mas, aí nesse momento, estava priorizando minhas aulas para turmas do ensino fundamental, pois havia acabado de assumir um cargo de professor efetivo em um concurso que prestei ainda em 2003.  Tempos depois, fiz um outro trabalho para ele. na hora de me pagar, ele me disse “Você pediu muito pouco e eu também não tenho como te pagar bem. Já sei! Vou conversar com o pessoal da editora, eles podem pagar bem mais do que eu te pagaria!”. E foi o que aconteceu, a editora me pagou, recebi bem mais do que esperava e complementei minha renda naquele mês.

Esse outro autor também era um professor experiente e me forneceu dicas valiosas de como ensinar História para adolescentes. Me contou sobre como sua primeira coleção de livros didáticos havia nascido a partir de uma apostila que ele havia elaborado sozinho para os alunos de um colégio particular. Me contou também sobre como essa apostila custou muitas horas de trabalho nos finais de semana. Nos tornamos bons amigos e ele ainda me indicou para um trabalho freelance para outra editora.

Ambos os autores para quem trabalhei, estão entre os melhores do ramo. O que significa que tive o privilégio de conviver e aprender  algo com profissionais competentes, com muito mais conhecimento do que eu.

Como em um passe de mágica, a trama se complica

Este do  cartum Mandrake eu fiz anos atrás (acho que 1995 ou 1996) pra um desses salões de humor. Mas acabei não mandando, não lembro se foi porque perdi o prazo ou se porque faltou dinheiro pra colocar no correio…

Desenhei o original a lápis em folha A3, depois cobri os traços com nanquim e caneta para retroprojetor. O texto com a fala do Mandrake foi digitado no computador, não havia muitas fontes disponíveis e como não tinha scanner, imprimi o texto e colei no desenho. Depois, reduzi o original para o tamanho A4. Alguns anos depois,em 1998 ou 1999, o Rubens escaneou a cópia em A4 e coloriu  com a intenção de publicar num outro projeto de site que sei lá porque acabou não se concretizando.

O humor aqui é bem do tipo de coisa que se via nos Trapalhões antigamente, quando ainda não existia essa chatice de politicamente correto e patrulheiros ideológicos perdiam tempo debatendo sobre piadas.

Antes de tirarmos conclusões precipitadas, talvez, Mandrake estivesse dormindo de cuecas na cama enquanto Lothar estava  na outra cama, acompanhado de duas jovens muito prendadas, que ele conheceu numa boate, e que, assustadas com a chegada de Narda, se esconderam e fugiram.

Mandrake

Superboy dos anos 1990

Esse cartum do Superboy eu fiz em 1998 ou 1999. Era apenas um pretexto para desenhar o Superboy dos anos 1990 e as namoradas dele. Esse Superboy dos anos 1990 era um clone, diferentemente do Superboy clássico que era o próprio Clark Kent quando adolescente.  Este cartum foi publicado pela primeira vez no Fotolog em dezembro de 2003.

Apesar da fama de mulherengo desse Superboy, muitos leitores brasileiros da DC Comics criticavam o visual do herói e o chamavam de “Superboiola”.

Mais uma vez: texto e desenho de Marco Túlio Vilela, letras e cores de Rubens Menezes.

Superboy

Almoço na casa do Gavião Negro e da Mulher-Gavião

Outro cartum de 1997 que foi publicado pela primeira vez no antigo site Gibindex. Quem disse que super-heróis do segundo escalão não são passíveis de serem satirizados? Pra quem não conhece, esses são o Hawkman e a Hawkwoman, personagens dos quadrinhos que já apareceram também nos desenhos-animados dos Superamigos e da Liga da Justiça. No Brasil, eles receberam uma porrada de nomes: Falcão da Noite; Gavião Negro; Homem-Águia; Mulher-Águia; Mulher-Gavião… Nossos tradutores ainda não chegaram a um acordo. Sem falar naqueles que os confundem com o Homem-Pássaro (Birdman) e a Mulher-Pássaro (Birdwoman) dos antigos desenhos da Hanna-Barbera. Pra variar: texto e desenho de Marco Túlio Quem disse que super-heróis do segundo escalão não são passíveis de serem satirizados? Pra quem não conhece, esses são o Hawkman e a Hawkwoman, personagens dos quadrinhos que já apareceram também nos desenhos-animados dos Superamigos e da Liga da Justiça. No Brasil, eles receberam uma porrada de nomes: Falcão da Noite; Gavião Negro; Homem-Águia; Mulher-Águia; Mulher-Gavião… Nossos tradutores ainda não chegaram a um acordo. Sem falar naqueles que os confundem com o Homem-Pássaro (Birdman) e a Mulher-Pássaro (Birdwoman) dos antigos desenhos da Hanna-Barbera. Pra variar: texto e desenho de Marco Túlio Vilela, letras e cores do Rubens Menezes.

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