Túlio Vilela entrevista o roteirista Steve Englehart

Entrevista publicada originalmente em 29 de agosto de 2006 no site Fanboy

Steve Englehart

Os leitores mais velhos provavelmente já viram o nome dele, Steve Englehart, nos créditos de várias histórias. Quem acompanhava os títulos de super-heróis Marvel/DC em formatinho da Editora Abril, nos anos 1980, certamente já leu pelo menos uma história escrita por ele. Estamos falando de um dos mais experientes e prolíficos roteiristas de quadrinhos de super-heróis. Ele já escreveu histórias do Batman, Lanterna Verde, Doutor Estranho, Capitão América, Vingadores e praticamente de quase cada herói da Marvel e da DC.

Nascido em 22 de abril de 1947, na cidade norte-americana de Indiana, no estado de mesmo nome, é casado, pai de dois filhos e, além do inglês, domina os idiomas francês, espanhol e alemão. Estreou nos quadrinhos em 1971, trabalhando como assistente do desenhista Neal Adams na revista Vampirella, publicada pela extinta editora Warren.

Além de quadrinhos, ele também escreveu romances, roteiros para cinema e televisão, e videogames (projetando jogos para a Atari e outras companhias). Entre seus trabalhos em outras áreas podemos destacar episódios dos desenhos-animados de Street Fighter e Comandos em Ação. Uma de suas criações, o super-herói Night Man, que era publicado pela editora norte-americana Malibu, ganhou um seriado de TV, exibido no Brasil pelo SBT com o nome de O Homem Elétrico).

Nesta entrevista por e-mail, Englehart falou do início de sua carreira nos quadrinhos, de política, do seu trabalho nos quadrinhos e em outras áreas, dos personagens que criou, e muitas outras coisas. Também ficamos sabendo que, diferente do que demonstram outros roteiristas norte-americanos, Englehart sabe que o idioma falado no Brasil é o português e não o espanhol.

Ryu e Ken em Street Fighter

Você tem diploma universitário?
Sim. Eu sou bacharel em Psicologia.

O que você considera mais importante para um roteirista: escolaridade, talento ou experiência no mundo real?
Talento e experiência são essenciais. A educação é um complemento.

Como você se tornou assistente de Neal Adams em Vampirella e decidiu se tornar um roteirista profissional?
Eu queria ser desenhista, e admirava a arte de Neal. Então decidi procurá-lo e perguntei se eu podia me tornar seu assistente. Ele foi bastante gentil em me aceitar. Infelizmente, eu não era um artista bom o suficiente para agradar a mim mesmo, e, por isso, quando apareceu uma chance para ser escritor eu a agarrei. E descobri que gostava de escrever.

Muitas vezes, você incluiu temas políticos em seus quadrinhos. Por exemplo, a sua fase na revista do Capitão América que refletiu o escândalo Watergate [escândalo ocorrido em meados dos anos 1970, em que foi descoberta a invasão e espionagem de membros do Partido Republicano, do então presidente norte-americano Richard Nixon, num comitê do Partido Democrata. O escândalo iniciou um processo de impeachment contra Nixon, que acabou renunciando, e inspirou o filme Todos os homens do presidente, estrelado por Robert Redford] que estava sendo noticiado na época. Você é simpatizante do Partido Democrata? Você tem ou teve divergências políticas com editores por causa de suas histórias?

Steve Rogers abandona sua identidade como Capitão América

Eu sou um “democrata” (no sentido de que sou simpatizante do partido), mas digo isso porque sou também um democrata (no sentido de que me interesso pelo povo). Eu acredito nos ideais sobre os quais a América foi fundada, embora eu saiba muito bem que eles não têm sido respeitados pelo atual governo. O Capitão América também acredita nesses ideais. Então, para mim, pareceu óbvio que ele teria a mesma reação que eu tive em relação ao Watergate. O que quero dizer é que concordei com ele [o Capitão América], mas eu escrevi o que escrevi, porque o personagem se sentia daquele jeito, não porque quis fazer meu próprio discurso político. A grande coisa na Marvel naquela época era que eles não interferiam no trabalho dos roteiristas. Entretanto, no ano passado, quando a Marvel me pediu para escrever algumas novas histórias do Capitão América, eu disse que eles teriam que incluir política nas histórias, e eles retiraram a oferta. É um microcosmo de o quanto a América mudou com o passar do tempo.

Você escreveu várias histórias em que o Capitão América lutou ao lado do Falcão, um dos poucos super-heróis negros. Foi uma decisão sua ou dos editores incluir o tema do racismo em suas histórias do Capitão América? Qual foi a reação dos leitores negros nos Estados Unidos?
Preconceito racial é uma constante na vida, algo que meus leitores de toda as cores conhecem bem. Eu não estava fazendo um discurso lá, estava simplesmente refletindo a vida norte-americana nos anos 1970. Basicamente, eu vi o Capitão América, em primeiro lugar, como sendo um gibi para entretenimento, em segundo,como um comentário sobre a América. Ignorar a questão racial naquela época seria tão falso quanto ignorar o Watergate.

Dr. Strange #14: Sise-Neg surge

Você recebeu críticas negativas ou teve problemas com pessoas religiosas por causa daquela história do Doutor Estranho, em que um feiticeiro chamado Sise-Neg [“Gênesis” de trás para frente] viaja pelo tempo colecionando energias mágicas até chegar ao início de tudo e descobrir que é Deus? Essa história reflete alguma crença religiosa ou filosófica sua?
Não, foi apenas uma história. Eu não sei como são as coisas no Brasil de 2006 (embora eu adoraria viajar para aí e descobrir!), mas nos Estados Unidos, os anos 1970 foram uma época em que as pessoas estavam mais abertas para idéias novas do que os Estados Unidos de 2006. Freqüentemente me perguntam nos dias de hoje se isso ou aquilo me causou problemas no passado, e a resposta é quase sempre “não”. As pessoas ficavam entusiasmadas com as idéias, não com medo delas.

Você trabalhou muitas vezes com Joe Staton, um grande mas subestimado artista. Por favor, comente sobre sua parceria profissional com ele. Na sua opinião, qual foi o melhor gibi que vocês fizeram juntos?
Adorei trabalhar com Joe. Eu listaria toda a fase do Lanterna Verde que fizemos juntos, mas se eu tivesse de escolher uma edição, seria Green Lantern #198, no fim da Crise nas Infinitas Terras, quando Hal consegue seu anel de volta.

Kilowog ajudou na criação dos Sovietes Supremos

Você leu a fase do Lanterna Verde escrita por Ron Marz? Qual é a sua opinião, enquanto leitor e também roteirista profissional, daquelas histórias em que Hal Jordan se tornou um vilão, morreu e foi substituído por Kyle Rayner?
Numa visão de leitor, não posso dizer que gostei de ver Hal se tornar um vilão; era algo completamente fora do personagem. Mas a DC fez um bocado de coisas com o personagem por um tempo.

Eu me lembro de uma história do Lanterna Verde em que Mikhail Gorbachev apareceu e foi mostrado não muito diferente daqueles vilões comunistas que apareciam nos gibis dos tempos da Guerra Fria (especialmente os do Homem-de-Ferro). Você acha que Gorbachev não foi sincero em sua política para acabar com a Guerra Fria e aproximar as duas superpotências, os Estados Unidos e a hoje extinta União Soviética?
Pelo que me lembre, naquela história, Gorbachev agiu mais como o líder de um país em competição com outro, não como um supervilão. Pessoalmente, tenho certeza de que ele foi sincero, porque ele provou isso pelas ações dele, mas antes da detente [a fase em que norte-americanos e russos começaram a deixar a rivalidade de lado], a competição era real, e novamente, apenas trabalhei com o que estava acontecendo na vida real.

Extrano: primeiro personagem gay da DC

Você recebeu alguma crítica por causa daquele personagem gay que você incluiu na minissérie Milênio?
Sim. Recebi críticas por causa disso. Foi nos anos 1980, quando as mentes começaram a ficar menos receptivas a novas idéias. Mas o preconceito em relação aos homossexuais é tão difuso quanto o preconceito racial (embora possa ser que isso esteja mudando agora). Em qualquer evento, era claro para mim que se os Guardiões escolheram um grupo de pessoas, a probabilidade era que pelo menos uma delas seria homossexual. Então segui adiante com a idéia. Eu achei a reação interessante, porque: a) recebi, talvez pela primeira vez em minha carreira, objeções editoriais e, b) partes da própria comunidade gay objetaram, afirmando que Gregório não era o “tipo certo” de gay por ser afeminado demais.

Minha resposta foi que ele não tinha a obrigação de ser, nem poderia, uma soma de todos os gays que existem, mas certamente existe uma parcela dos gays que são afeminados. Se eu tivesse colocado um segundo personagem gay na história, ele seria naturalmente diferente. Isso virou assunto de um debate com o nome de “Gays nos quadrinhos” na Convenção de Quadrinhos de San Diego, para o qual fui convidado.

Quando eu e a platéia discutimos sobre isso, um rapaz levantou-se e disse que seu parceiro, que havia morrido recentemente de AIDS, era exatamente do mesmo jeito que Gregório. E isso colocou um fim à discussão! Depois no gibi Strangers, que era publicado pela Malibu, criei outro personagem gay que era completamente diferente, pela mesma razão do grupo escolhido pelos Guardiões em Milênio: o destino escolheu por acaso um grupo de pessoas para se tornarem os Strangers, e as chances eram que pelo menos uma delas seria gay.

Alguns críticos afirmam que o primeiro filme do Batman dirigido por Tim Burton foi influenciado pela fase em que você escreveu os gibis do herói. Você concorda com essa afirmação? Você gostou do filme?
Não apenas os críticos: o produtor, Mike Uslan, também disse isso, e eu digo isso. Todos os roteiros que foram feitos antes das filmagens (num período de treze anos) usaram os nomes Silver St Cloud para a namorada do herói e Chefão Thorne para o político. O Coringa era o Coringa que eu escrevi, e o Batman era bem parecido com o meu Batman (diferente de como ele foi retratado por cada outro bat-roteirista, ele não era louco).

Fui trazido ao projeto depois de dez anos. Escrevi dois argumentos. Esses argumentos e os quadrinhos originais serviram de base para o roteiro final. No final, eles mudaram os nomes de Silver e Thorne, mas não suas personalidades. E o diretor de arte desviou para algo mais parecido com o Cavaleiro das Trevas, que havia sido lançado pouco antes das filmagens. Mas, de modo geral, o filme usa claramente meus personagens e minhas caracterizações. Portanto, sim, eu gostei do filme.

Ultraverso

Você criou o Ultraverso. Qual é a origem dessa série, como você criou esses heróis? Você detém os direitos sobre eles?
Infelizmente, nenhum de nós “Pais Fundadores” [aqui Englehart faz uma analogia entre os criadores dos quadrinhos e os puritanos vindos da Inglaterra, que fundaram as colônias; que deram origem aos atuais Estados Unidos] possui os direitos sobre nossas criações. O acordo com a Malibu era que eles iriam deter os direitos sobre as criações, mas iriam nos pagar uma porcentagem dos lucros. O que nós não previmos foi a compra da Malibu pela Marvel; nem a decisão da Marvel de que não iria nos pagar. No final das contas, acabaram não publicando esses personagens. Eu já tentei uma dúzia de vezes nos últimos dez anos conseguir que o Ultraverso fosse ressuscitado pela Marvel. Penso que isso jamais acontecerá.

Nós criamos os personagens nos reunindo em um resort por quatro dias, e passado cada hora daqueles dias pensando, trocando idéias, tentando colocá-las para fora, conseguindo e oferecendo apoio. Foi um paraíso de criatividade. Nós definimos os personagens que vieram à mente, e criamos o Ultraverso para colocar todos eles dentro. A Malibu de 1993 era muito parecida com a Marvel de 1973: um lugar completamente livre para criar.

O que é mais interessante para você: escrever histórias com personagens criados por outras pessoas ou com personagens criados por você mesmo?
Eu realmente não me importo de onde os personagens vieram. Meu interesse está nos próprios personagens.

O que você mais gosta de escrever: quadrinhos, romances, filmes para o cinema, desenhos animados, séries de televisão ou videogames?
De diferentes maneiras, todos são divertidos de escrever. Gosto de quadrinhos porque foi onde comecei, mas na primeira vez em que vi atores encenando minha história diante das câmeras eu parecia um garotinho. Nos momentos em que tive problemas para conseguir um artista de quadrinhos para desenhar o que eu estava imaginando, eu comecei a apreciar o texto em prosa literária por me dar a chance de fazer tudo exatamente da maneira que eu quero. Embora eu prefira trabalhar com um artista, nos quadrinhos ou nos games, por causa da sinergia.

Sr. Englehart, muito obrigado pela sua entrevista. O que você gostaria de dizer aos seus fãs brasileiros?
Eu falo bem o espanhol, mas infelizmente falo pouco português. Então nada conseguiria dizer sem sua ajuda. Mas gosto de considerar-me um cidadão do mundo. E é muito bom saber que tenho fãs no Brasil. Sempre tentei ver as coisas dentro de um contexto maior, mas tudo que pude controlar eram as minhas histórias, que saíam em inglês. Se você gosta do material que você vê em português, eu devo minha gratidão aos vários tradutores e editores. Eu espero conseguir viajar para a América do Sul algum dia, e agradecer cada um pessoalmente, por achar algo de interessante nas minhas histórias.

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