Túlio Vilela entrevista o desenhista Joe Staton

Entrevista publicada originalmente em 24 de outubro de 2006 no site Fanboy
Agradecimentos especiais a Steve Englehart, que tornou possível a entrevista.

Jason Staton

Mais uma vez, o Fanboy consegue uma entrevista exclusiva com um artista estrangeiro. Agora, com um veterano que, felizmente, parece estar longe da aposentadoria. Está tão ativo quanto anos atrás, no início de sua carreira.

Estamos falando de Joe Staton, artista famoso por seus trabalhos para várias editoras norte-americanas, especialmente a DC, para a qual desenhou, durante muito tempo, histórias do Lanterna Verde. Experiente e prolífico, Staton é também versátil, a exemplo de sua adaptação para quadrinhos de Scooby-Doo (atualmente publicado no Brasil pela Panini).

Nesta entrevista, o artista gentilmente respondeu por e-mail a uma variedade de perguntas. Uma verdadeira aula de quadrinhos, pode-se dizer; tanto de sua História, da qual Staton é integrante e testemunha, quanto de como se fazer quadrinhos, na qual os artistas aspirantes certamente encontrarão conselhos valiosos.

Qual é o seu trabalho mais recente?
Eu continuo fazendo Scooby-Doo para os gibis da linha Cartoon Network, da DC. Tenho ilustrado vários livros de atividades e para colorir do Batman, e dos Novos Titãs para a Scholastic e outras editoras. Nick Cuti e eu estamos atualmente finalizando uma edição especial de E-Man, que será lançada pela Digital Webbing, em setembro, e reapresentará a origem do herói e o elenco de personagens da série [E-Man é um herói alienígena com poderes semelhantes aos do Homem Borracha, e que já foi publicado por diversas editoras nos Estados Unidos. Suas aventuras são caracterizadas pelo humor e tom de paródia].

Scooby-Doo no traço de Staton

Scooby-Doo no traço de Staton Além disso, Chris Mills e eu estamos trabalhando numa minissérie da Femme Noir, estrelada pela personagem de nossos quadrinhos na Internet. Femme Noir está sendo arte-finalizada pelo excelente artista argentino Horacio Ottolini, que criou um visual bem atraente e soturno. Essa série está com previsão para ser lançada no verão norte-americano de 2007.

Muito antes de se tornar artista profissional, você teve algumas cartas publicadas em revistas da DC. Você se lembra do que escreveu nessas cartas? Acha que a sua publicação o motivou a tentar uma carreira nos quadrinhos?
Tive cartas publicadas nas revistas Green Lantern [Lanterna Verde], JLA, e Forbidden Worlds; que, se não me engano, era um gibi da ACG [sigla de American Comics Group, uma editora norte-americana que publicou quadrinhos de 1941 a 1967]. Minha primeira carta saiu em Green Lantern, quando eu tinha vinte anos de idade, e estava tentando parecer muito perspicaz e analítico. Isso foi importante para mim, porque me fez perceber que eram pessoas de verdade quem faziam quadrinhos. Se elas faziam, eu também podia.

Julie Schwartz foi o primeiro dos “fazedores de quadrinhos” que eu conheci de verdade [“Julie” era o apelido de Julius Shwartz, editor da DC, responsável pela reformulação dos quadrinhos de super-heróis na editora, nos anos 1950, dando início à “Era de Prata”, faleceu em fevereiro de 2004]. Anos depois, eu disse a Julie que ele tinha um monte de perguntas para responder.

O trabalho de Chester Gould foi forte influência

Quais são os artistas que você considera como os que mais influenciaram no seu estilo?
Eu sempre fui influenciado por Chester Gould [criador da tira de jornal Dick Tracy, que conta as aventuras de um detetive de Chicago] e Al Capp [criador da tira humorística Lil Abner, conhecida no Brasil como Ferdinando, ou Família Buscapé]. As coletâneas de velhas histórias da revista MAD, que saíram nos anos 1960, também me influenciaram bastante.

Jack Davis e Will Elder, especialmente. Gil Kane e Steve Ditko também exerceram grande influência sobre mim, desde os tempos Hopalong Cassidy [um gibi de faroeste] e The Mysterious Traveller [um gibi de terror e mistério que publicou várias histórias de Ditko]. Depois, eu trabalhei para Gil, fazendo layouts; uma influência direta e maior. Jim Aparo [artista que desenhou várias histórias do Batman] foi outra influência importante.

Você colaborou em fanzines? Você acredita que fanzines ou publicações amadoras ainda são uma boa maneira de artistas aspirantes mostrarem seu trabalho para editores profissionais?
Eu fiz pouca coisa para fanzines de quadrinhos, e um monte de trabalhos para fanzines de ficção científica. Eu colaborei um pouco no fanzine de quadrinhos Fantasy Illustrated (depois rebatizado Graphic Story Magazine), editado por Bill Spicer. Bill foi importante para mim, porque ele foi a minha primeira fonte de informação sobre como quadrinhos de verdade eram realmente produzidos. Mais uma vez foi o conhecimento de que pessoas reais faziam quadrinhos, e como os quadrinhos de verdade eram produzidos.

Eu devo muito a Bill por isso. Eu era muito ativo na área de fanzines de ficção científica e publiquei meu próprio fanzine, Invader, para a SFPA, uma apa [sigla de amateur press association (associação de imprensa amadora); ou seja, um grupo de editores de fanzines] do Sul dos Estados Unidos. Fiz muitas capas e ilustrações internas para os fanzines Odd, editado por Ray Fisher, Loki, editado por Dave Hulan, e Yandro [vencedor de três prêmios Hugo, o “Oscar” da ficção de científica, na categoria de melhor fanzine], editado por [Robert] Coulson [falecido autor de livros de ficção científica]. É possível que, atualmente, eu seja a única pessoa nos quadrinhos cujo estilo foi em grande parte desenvolvido para atender às necessidades de desenhar em estêncil; para mimeógrafo.

Staton autografando um exemplar de Space:1999

Você freqüentou alguma escola de arte ou faculdade?
Sim. Eu freqüentei a Murray State College, no Kentucky, e tenho um diploma em Belas Artes. O curioso é que a maioria das aulas era de História da Arte, mas meu certificado é, na verdade, uma espécie de diploma de pedagogia; apesar de eu nunca ter tido aulas dessa matéria. Depois, matriculei-me na Hunter College, em Nova York, onde consegui meu primeiro trabalho nos quadrinhos, e deixei de lado os estudos de História da Arte.

Como e quando você estreou profissionalmente nos quadrinhos?
Eu fiz alguma coisinha para a Warren [editora que publicava as revistas de terror Creepy e Eerie, cujo material foi publicado no Brasil pela revista Kripta], mas eu considero que meu primeiro trabalho de verdade foi uma história para o gibi The Many Ghosts of Doctor Graves, para a Charlton [editora onde foram publicadas as primeiras histórias do Questão e do Capitão Átomo; antes dos direitos dessas personagens serem vendidos para a DC] em 1970. Consegui o trabalho na época da minha lua de mel. Ainda estou trabalhando. E ainda estou casado.

Você trabalhou na, hoje extinta, Charlton Comics. É verdade que essa editora pagava muito menos que as outras editoras norte-americanas da época? Quais as outras diferenças da Charlton em relação às outras?
Sim. A Charlton me pagava 24 dólares por uma página desenhada, finalizada e letreirada, enquanto outras editoras estavam pagando 30 dólares apenas pelo desenho a lápis. A Charlton imprimia seus quadrinhos em sua própria gráfica. Usava um papel muito barato, e um sistema muito, muito básico, mesmo, de separação das cores. A verdade é que a Charlton publicava quadrinhos apenas para manter sua gráfica funcionando, entre os intervalos da impressão de revistas de música para adolescentes. Era mais barato manter as prensas imprimindo alguma coisa do que desligá-las.

Femme Noir

O que você se lembra da época em que trabalhou para a Warren? Você prefere desenhar para revistas em tamanho grande, e em preto e branco, ou para gibis coloridos?
O que eu mais me lembro, principalmente, é que Jim Warren [dono da editora] era um tipo muito estranho para se trabalhar. Seu editor era Billy Graham, e Billy não queria ter mais de uma pessoa no escritório por vez. Então, se eu aparecesse mais cedo, tinha que ficar sentado no estacionamento, ou coisa parecida, até que chegasse a hora de entrar. Naquela época, eu realmente não sabia como fazer, sozinho, quadrinhos em preto-e-branco. Só aprendi isso quando estava fazendo a arte-final de Elfquest para Wendy Pini. Foi um verdadeiro aprendizado ver como ela usava sombras e texturas.

Com a chegada da colorização por computador, penso que a maioria dos quadrinhos de hoje exageram nas cores e detalhes. Por isso, para admirar a arte, é muito mais prazeroso ver um bom trabalho em preto e branco. Horacio, que está fazendo a arte-final da minissérie Femme Noir, domina totalmente o uso do preto e branco. Ele finalizou uma história do Batman para a linha Elseworlds [no Brasil Túnel do tempo], que eu desenhei para Archie Goodwin. Ficou espetacular. Tanto que mesmo a colorização que recebeu era quase uma distração.

A maioria dos leitores associa seu trabalho aos gibis da DC. Você nunca trabalhou para a Marvel?
Para a Marvel, eu fiz a arte-final do gibi dos Vingadores, então desenhado por Sal Buscema, e para o gibi do Hulk, à época desenhado por Herb Trimpe; depois por Sal, em meados dos anos 1970. Eu fui para a DC porque eu não estava conseguindo nenhum trabalho como desenhista na Marvel, e não queria ser apenas arte-finalista. Eu já havia feito trabalhos completos para a Charlton, lápis e nanquim, e queria conseguir o mesmo em outro lugar.

A Morte de Batman

Você desenhou para a DC uma história clássica: a morte do Batman da Terra-2 [detalhe: história publicada antes da minissérie Crise nas Infinitas Terras. O Batman da Terra-2 teria iniciado sua carreira em 1939, se casado com a Mulher-Gato, com quem teve uma filha, a Caçadora, que seguiu a carreira de combate ao crime após Bruce Wayne aposentar o uniforme do Homem-Morcego]. Quem decidiu matar o Batman naquela história: o roteirista ou o editor? Você gostou de desenhar essa história?
Eu não tenho certeza, mas acho que foi o editor Joe Orlando quem teve a idéia. Lembro-me que Mike Barr [roteirista de Camelot 3000] era o co-editor na época, e ele ficou furioso com aquilo, gritando para Joe algo como “Você está doido… Não pode deixar que um vilãozinho qualquer mate o Batman!” Houve alguns bons momentos na história, em especial, o em que a Caçadora encontra o pai dela, o Batman, sendo morto em serviço.

Você ajudou na criação da Caçadora?
Sim. Estive envolvido nas duas versões da Caçadora. A Caçadora da Terra-2 surgiu quando o arte-finalista Bob Layton sugeriu um contraponto feminino para a Poderosa [que era prima do Superman da Terra-2] na Sociedade da Justiça. Paul Levitz criou a história da origem dela, com a ajuda extra do colorista Tony Tollin, que introduziu o elemento-chave; o fato de a Caçadora ser filha do Batman e da Mulher-Gato.

Com isso em mente, eu criei o visual dela, com uma boa dose de envolvimento do editor Joe Orlando. A Caçadora atual, que aparece na série Birds of Prey, foi criada por Joe Cavalieri e eu, com freqüente supervisão do editor Andy Helfer.

Você desenhou muitas histórias do Lanterna Verde, escritas por Steve Englehart. Existem muitas diferenças entre trabalhar com outros roteiristas e trabalhar com Steve?
Com Steve eu nunca sabia em que direção ele estava levando a história. Com outros roteiristas, mesmo aqueles excelentes, dentre os quais, Marv Wolfman, Len Wein ou Mike Barr, desde que compreendesse a base do argumento, eu geralmente podia prever para que direção eles estavam indo. Com Steve, eu nunca pude prever. Talvez isso somente signifique que nem mesmo Steve sabia para onde suas histórias estavam indo. Mas, para mim, que jamais fiquei entediado em qualquer trabalho com Steve.

Lanterna Verde

O que você prefere quando está desenhando um gibi: roteiros muito precisos ou aqueles que dão maior liberdade ao artista?
Eu já desenhei um gibi de vinte e duas páginas, a partir de um roteiro com cento e dez páginas de descrições muito rígidas do que deveria aparecer em cada quadrinho, e já desenhei um gibi inteiro a partir um parágrafo escrito num guardanapo na hora do almoço. Então, eu consigo trabalhar em ambos os casos. O melhor roteiro que já vi foi feito por Archie Goodwin, quando eu fazia layouts para Gil Kane. Nós fizemos uma edição de aniversário do Homem-Aranha, em que apareciam todos os arquiinimigos do herói. Cada parágrafo era uma página, cada frase, um quadrinho. Não havia uma palavra desnecessária sequer, mas tudo que eu precisava estava ali. Maravilhoso!

Entretanto, existe um tipo de roteiro que eu odeio. Eu chamo de “quem-fica-onde”. É quando o roteirista, que visualizou tudo minuciosamente, chega a ponto de insistir, de dizer a você, quais personagens estão de pé, à direita da porta, e como seus dedões do pé estão apontados, e para onde. Em alguns casos, um roteiro como esse não é apenas impossível de ser desenhado. É também impossível de ser lido.

Hoje em dia, muitos leitores e, mesmo, alguns artistas, parecem pensar que quanto mais detalhado for um desenho, melhor ele será. O que você pensa dessa “filosofia”? Existe alguma “ditadura” no mercado de quadrinhos que exija que a arte de todo gibi seja “foto-realista” ou coisa parecida?
Algumas vezes, mais detalhado significa apenas que foi trabalhado com mais traços, e isso é o extremo oposto do foto-realismo. Jim Lee [que coloca muitos detalhes nos seus desenhos] e Alex Ross [que faz um trabalho foto-realista autêntico] são muito populares, e muito diferentes entre si. Às vezes, nem os fãs, nem os editores, sabem do que eles realmente gostam, indiferentemente do dizem.

Caçadora

Sua narrativa visual é muito boa. Quais dicas de narrativa visual você daria aos artistas aspirantes?
O espaço que as figuras ocupam deve parecer tridimensional. Tenha em mente onde você precisa estar num espaço tridimensional para ver o movimento chave que conta a história. Desenhe a partir desse ponto de vista: o plano em que aparece a cena. Observe os trabalhos de Joe Kubert. Observe os trabalhos de Gil Kane.

Você trabalhou como diretor de arte na editora, hoje extinta, First Comics [que publicava títulos como American Flagg e Badger, já lançados no Brasil pela Cedibra e pela Abril]. Por favor, comente algo a respeito dessa experiência.
First Comics? Bem, eu sobrevivi a isso. E espero nunca mais passar de novo pela mesma coisa. Numa visão otimista, foi extremamente instrutivo. Houve época em que eu era provavelmente a única pessoa trabalhando nos quadrinhos que podia afirmar que tinha experiência em todas as etapas de produção de um gibi; desde gerar o conceito inicial de uma história a descarregar a caminhonete, e entregar os gibis na loja.

Nos últimos anos, você desenhou muitos gibis baseados em desenhos-animados (Superman Adventures, Batman Adventures e Scooby-Doo). Você tem alguma experiência na área de animação?
Eu me envolvi com animação apenas recentemente. Eu passei storyboards a limpo para a série das Tartarugas Ninjas, na temporada passada. Meu trabalho com quadrinhos no estilo animated apareceu porque eu posso pegar um estilo já existente, sem que questões do meu próprio estilo se tornem um problema.

E-Man

O que você mais gosta de fazer: páginas a lápis para a arte interna ou a pintura de capas?
Eu não me sinto realmente à vontade com capas. Eu penso em termos de uma imagem após outra, para contar uma história. Fazer uma única imagem para servir de sumário para uma história não é algo fácil para mim. Não tenho paciência para pintar. Não gosto de passar muito tempo me concentrando numa única imagem.

Como surgiu o E-Man? Ainda é publicado?
Nick Cuti veio com a idéia do E-Man quando ele trabalhava na redação da Charlton, e temos trabalhado nele desde então, com idas e vindas, no decorrer dos anos. Como já mencionei antes, haverá uma nova edição especial do E-Man, que será lançada pela Digital Webbing em setembro deste ano. Se der certo, esperamos fazer outras.

Alguns artistas são os favoritos entre os fãs [exemplo: Jim Lee] e outros são favoritos entre os artistas [exemplo: Alex Toth]. Na sua opinião, o que explica essa diferença? Para você, quem são os grandes mestres na arte dos quadrinhos?
Quando você entra em contato com as obras de Carl Barks [criador do Tio Patinhas] e Will Eisner [criador do Spirit], é difícil imaginar quem são os atuais mestres do meio. Eles apenas tinham histórias para contar; que casaram totalmente com suas habilidades artísticas. Isso não acontece com freqüência, mas com a ascensão atual das graphic novels, nós podemos ver mais disso.

Senhor Staton, muito, muito obrigado por essa entrevista. O que você gostaria de dizer aos seus fãs brasileiros?
Obrigado pelo interesse. Eu passei umas férias no Rio em 1969, e espero voltar lá um dia desses. Depois, talvez, que eu voltar de uma visita a Horacio Ottolini, em Buenos Aires. É na mesma vizinhança, certo?

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