Entrevista que fiz com o Herb Trimpe

Esta entrevista foi publicada originalmente no meu antigo blog, o Quadrinhos ao Quadrado, em dezembro de 2005, e também no número 26 da Wizard Brasil em fevereiro de 2006. Herb Trimpe faleceu em 13 de abril de 2015.

Imagine o que é trabalhar como desenhista para uma das maiores editoras de quadrinhos do mundo. Imagine, agora, o que é ficar desempregado, após 29 anos de serviços prestados para essa editora; no caso, a poderosa Marvel. Pois foi justamente por isso que o artista Herb Trimpe passou, então com 56 anos de idade e dois filhos ainda na faculdade.

Trimpe trabalhou na Marvel de 1967 a 1996, e ficou famoso por ter desenhado várias histórias do Hulk, a maioria delas publicada na década de 1970 — inclusive uma de importância histórica: a primeira aparição de Wolverine, antes do popular mutante se tornar membro dos X-Men. Trimpe também desenhou o Hulk para uma capa da Rolling Stone, a prestigiada revista de rock (nenhuma relação com a banda Rolling Stones). Isso aconteceu em setembro de 1971, e primeira vez em que um herói da Marvel aparecia na capa da revista. Trimpe começou a trabalhar na Marvel em 1967, após servir um ano na força aérea norte-americana, no Vietnã, e freqüentar três anos a School of Visual Arts, famosa escola de arte de Manhattan.

Além do Hulk, desenhou histórias dos Defensores; antigo grupo de heróis da Marvel, doqual o “gigante esmeralda” também chegou a ser membro. Na década de 1980, Trimpe também desenhou uma minissérie do Homem-Máquina, com arte-final de Barry Windsor-Smith (no Brasil, os capítulos dessa minissérie foram publicados pela Abril na extinta revista Heróis da TV), e as séries Transformers e Comandos em Ação (ambas publicadas no Brasil pela Editora Globo).

Muitos leitores talvez torçam o nariz para os desenhos de Trimpe, por julgarem o seu estilo ultrapassado, mas não pode ser desprezado o fato de que ele foi um dos artistas que mais contribuiram para que a “Casa das idéias” se tornasse a potência que é hoje no mercado mundial de quadrinhos. Afinal, embora não tenha sido o primeiro artista a desenhar o Hulk, feito que coube ao “rei” Jack Kirby, foi Trimpe quem ajudou a definir o personagem. Vale lembrar que, na década de 1970, depois do Homem-Aranha, o personagem mais popular da editora era justamente o “verdão” (naquela época, os X-Men ainda estavam longe do sucesso de hoje).

Depois de sua trajetória pelos quadrinhos, Trimpe dedicou-se a outras atividades, dentre elas, a de professor de Artes para estudantes de sétima série, e de voluntário para encontrar e socorrer sobreviventes do atentado contra as Torres Gemêas, ocorrido no fatídico 11 de setembro de 2001. Nesta breve entrevista por e-mail, Trimpe falou um pouco da sua passagem pela Marvel.

Qual é a sua ocupação atual?
Eu não tenho um trabalho regular no momento. Eu faço principalmente trabalhos por encomenda, e escrevo alguma coisa. Escrevo mais por diversão. Eu adoro escrever, e sou autor de um livro que foi publicado por uma editora pequena, a Big Apple Vision. O livro é baseado num diário de quando eu estava trabalhando como voluntário no Nível Zero [a área destruída no atentado do 11 de setembro], em Manhattan. O título do livro é The Power of Angels[O poder dos anjos].

Você desenhou a primeira aparição de Wolverine. Você também foi responsável pelo design do personagem?

Você pode dizer que eu o trouxe [Wolverine] para a vida no último quadrinho da revista The Incredible Hulk, número 180, e de novo no número seguinte, mas eu não criei o visual do personagem. Foi John Romita sênior quem desenvolveu o seu visual, junto com o roteirista [Len Wein].

Você desenhou muitas histórias do Hulk. Você se lembra de personagens, incluindo inimigos do Hulk, que você ajudou a criar?
Não me lembro, mesmo. Houve muitos personagens secundários criados para várias das edições do Hulk em que trabalhei, mas não consigo me lembrar de todos. Dois personagens que logo me vêm à mente são Jarella, que fiz com [o roteirista e durante muitos anos editor na Marvel] Roy Thomas, e um personagem chamado Night Crawler. O Bi-Beast foi outro, mas todos eles foram criados em parceria com algum roteirista; que geralmente vinha com a idéia. Uma idéia que foi totalmente minha, uma das poucas, foram os Caça-Hulk, e a base de operações deles.

O que você acha do velho seriado de TV do Hulk, estrelado por Bill Bixby e Lou Ferrigno? E do filme dirigido por Ang Lee e estrelado por Eric Bana?

Eu gostava da velha série de TV, mas não posso dizer que assisti muitos episódios. Eu encontrei Lou Ferrigno certa vez, numa convenção de quadrinhos, e o sujeito era enorme. Mãos do tamanho de bandejas. Quanto ao filme, acho que ele funciona para o público em geral, mas do ponto de vista de um fã, acho que não foi assim memorável. Não é o Hulk que eu conheci nos quadrinhos.

Como você começou a trabalhar na Marvel?

Eu tive um amigo que era o chefe no departamento de produção, John Verpoorten. Eu o conhecia desde que freqüentávamos a escola de arte. Quando saí da Força Aérea, em 1966, ele abriu o caminho para que eu conseguisse um trabalho no departamento de produção da Marvel.

Na sua opinião, quais eram as principais diferenças da Marvel, a da época em que você começou e a do último ano em que você trabalhou lá?

No começo, era como fazer parte de uma família. No fim, nós, criadores, éramos apenas mais uma engrenagem na roda da corporação. Tudo muito impessoal, muito seco. Não muito divertido.

A Marvel lhe pagou alguma aposentadoria ou seguro-desemprego?

Nenhuma aposentadoria, mas pude receber o seguro-desemprego; o que foi muito útil, quando voltei a estudar. Na época em que eu estava conseguindo o meu diploma de mestrado, e o meu certificado de licenciatura [Trimpe tem um diploma de bacharelado em Artes e um mestrado na área de Educação pela Faculdade Empire State da Universidade do Estado de Nova York].

Você trabalhou muitos anos na Marvel. Você chegou a trabalhar para outras editoras?
Não, mas eu fiz um pequeno trabalho para a Dark Horse, no ano passado. Acho que foi uma capa. Não me lembro.

Você é um especialista em desenhar equipamentos militares. Aviões, especialmente. Isso tem alguma relação com a sua experiência no Vietnã, ou é um interesse anterior?
Nada a ver com o Vietnã. Foi o resultado de um interesse anterior, que tem a ver com meu entusiasmo por História, e o meu amor por aviação. Eu tenho uma licença de piloto, e, durante alguns anos, fui proprietário de um avião.

Quais são os seus quadrinhos favoritos?
Uma pergunta difícil , porque eu não comprava muitos quadrinhos, nem li muitos deles. Quando era criança, eu gostava dos quadrinhos Disney, e, depois. na época do ensino médio, eu era louco pelos quadrinhos da EC [editora famosa na década de 1950 por seus quadrinhos de terror, a mesma de onde surgiu a revista MAD]. Eu pegava emprestado de um amigo que os comprava regularmente.

Quais são seus artistas de quadrinhos favoritos?
Dois Jacks. Jack Kirby e Jack Davis [artista que trabalhou em todas as revistas da EC, inclusive na MAD].

Quais são seus roteiristas favoritos?

Como trabalhei com vários roteiristas, e convivi com eles profissionalmente, é impossível apontar um escritor favorito, especificamente. Todos faziam o trabalho deles e, enquanto as revistas estavam vendendo, todos eles eram os meus favorito

Na sua opinião qual é o arte-finalista que melhor finalizou seus desenhos?

Novamente: ao trabalhar com profissionais, eu achava que cada arte-finalista tinha alguma coisa de especial para contribuir com a revista. Eu nunca pensei em favoritos quando estava trabalhando. Cumprir prazos eram o objetivo principal. Tudo que me importava era isso: se conseguiríamos entregar a revista no prazo. Dito isso, sendo um antigo fã da EC, eu fiquei entusiasmado quando John Severin finalizou meus desenhos. Eu tive o prazer de encontrá-lo, e de conversar com ele pelo telefone umas duas vezes. Ele era um grande sujeito. Agora, é este fã falando agora.

A religião influenciou seu trabalho de alguma forma [Trimpe também é capelão da igreja episcopal no St. John´s Memorial em Ellenville]?
Apenas quando eu rezava a Deus para receber o pagamento e conseguir outro serviço.

Você desenhou uma pin-up do Escapista, inspirada no estilo das capas dos gibis de super-heróis da “Idade de Ouro” [do fim da década de 1930 a parte da década de 1940]. Como alguém que já trabalhou para uma editora de quadrinhos, o que você achou do livro de Michael Chabon [As aventuras de Kavalier e Klay]?

É divertido trabalhar com estilos diferentes. Eu fiz a capa e Michael gostou muito. O trabalho dele? Espetacular! É tudo o que posso dizer.

Você escreveu um livro e alguns contos. Você já pensou numa carreira literária? Você pensa em escrever e ilustrar um livro?

Eu pensei nisso por um ou dois segundos, mas eu gosto de escrever mais por diversão. Eu passei seis meses tentando conseguir um agente para um livro para jovens que escrevi, e como era uma verdadeira droga, fracassei. Fiquei cansado de tentar vender eu mesmo, de convencer alguns estranhos de que eles deveriam comprar meu trabalho para que eu ganhasse algum dinheiro. Em vez disso, decidi ser pobre — o que eu não sou, mas é o que decidi nesse caso.

Você pretende voltar a desenhar quadrinhos ou criar seus próprios personagens?
Não. Isso não está nos planos. Eu tenho outros interesses agora, com os quais estou me ocupando. E espero que sejam o bastante para eu seguir em frente.

O site oficial de Herb Trimpe é:

http://herbtrimpe.com/

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