Entrevista com Tako X

Fanboy entrevista: Tako X!

Entrevista publicada originalmente em 25 de março de 2007 no Fanboy

O Fanboy apresenta mais uma entrevista exclusiva, mas desta vez com um artista brasileiro que reside e trabalha no Japão. Certamente quem acompanhava a edição brasileira da revista humorística MAD publicada pela Record nas décadas de 1980 e de 1990 (atualmente a revista é publicada pela Mythos) já viu os trabalhos do paranaense e nikkei Edson Takeuti, mais conhecido pelo nome de Tako X. Entre seus trabalhos mais importantes para a MAD, podemos destacar os desenhos para uma paródia do seriado de TV do Jaspion, o herói japonês que encantou crianças de todo o Brasil em fins da década de 1980 e uma série de capas para a revista, onde diversas celebridades foram caricaturadas pelo artista de ascendência nipônica. Além dos trabalhos para a MAD, Tako também desenhou aventuras do Gralha, super-herói brasileiro que ganhou dois curtas-metragens dirigidos por ele mesmo. Atualmente, Tako mora no Japão, mas diferentemente da maioria dos dekasseguis (os brasileiros descendentes de japoneses que hoje fazem o caminho inverso de seus antepassados, tentando a sorte na terra do Sol nascente), ele não precisou trocar de profissão para apertar parafusos em alguma fábrica japonesa. Pelo contrário, no Japão, ele encontrou condições para continuar sua carreira de ilustrador. Além de ilustrações para diversos clientes, ele produz charges para um jornal dirigido à comunidade brasileira que vive e trabalha no Japão.

Edson Takeuti: Tako X

Quando você começou a desenhar?
Desde que me conheço por gente! Enquanto meus amiguinhos queriam ser piloto de F1 e astronauta, eu queria ser desenhista, e sabia que isso seria tão difícil quanto ser piloto ou astronauta. E realmente não foi fácil, não havia ninguém pra me dizer como me tornar profissional disso, nem havia cursos nessa área naquela época. Então tive que me tornar autodidata e aprender dos livros que eu emprestava da Biblioteca Pública.

Como e quando você estreou profissionalmente?
Aos 18 anos eu comecei a fazer desenhos pra jornalzinhos e revistas de Curitiba.

Você nasceu no Paraná? Como é o mercado para desenhistas no Paraná?
Sim, o mercado lá era meio pequeno, me parecia (acho que ainda é) … uma meia dúzia conseguia fazer todos os trabalhos importantes da cidade [de Curitiba]. Na verdade, em muitos casos, acho que era mais compensador pras agencia de publicidade contratarem gente de fora, com mais nome e um cachê mais alto, pois a gente nunca soube cobrar direito, pedia muito pouco. Para sobreviver no mercado local era preciso cobrar baixo, em média, pois de um modo geral os clientes locais não sabem ver a diferença entre um trabalho de um veterano e um artista que está começando, não sabem valorizar a qualidade e experiência.

Você recebia algo para publicar seus quadrinhos na Folha de Londrina? Pergunto isso, porque, infelizmente, é muito comum no Brasil os editores de jornais publicarem quadrinhos como se estivessem fazendo um favor aos desenhistas. Na verdade, é justamente o contrário, os desenhistas é que estão fazendo um favor aos editores, oferecendo seu trabalho de graça e atraindo mais leitores para os jornais.
Com certeza. Eu comecei publicando de graça, só para divulgar, no jornal Estado do Paraná e também na Gazeta do Povo, durante uns 3 anos. Neste último jornal eu comecei fazendo o Marco (na época era Marcozinho) de graça durante dois anos, junto com o Eduardo Moreira, outro cartunista com quem dividia a autoria, até que chegou uma hora que eu falei que se não recebesse eu pararia de fazer as tiras, isso era 1988 mais ou menos. Propus um valor e por sorte eles toparam, não dava pra largar algo assim de repente. Eles pagaram o valor até cancelarem a tira em 2000, pois acho que o valor passou a ser muito alto pois havia os reajustes e em comparação com os enlatados que vinham de fora, cujos valores foram diminuindo com o passar dos anos. Compensava contratar alguém pra desenhar as charges, tiras, desenhos do jornal ou adquirir as tiras enlatadas por uma ninharia. Ainda participei da equipe que desenhava o Gralha no Caderno Fun do mesmo jornal, que também teve o mesmo destino do cancelamento. Foi uma pena, mas eu fui, durante muitos anos, um cartunista de luxo do jornal e recebia ótimas críticas pelo meu trabalho, por isso acho que demoraram tanto pra cancelar.

Aventuras do Marcozinho

Nos seus quadrinhos das Aventuras do Marcozinho, tanto a diagramação quanto o traço lembram bastante as páginas dominicais do Calvin, personagem do Bill Watterson. O traço do Watterson foi uma influência ou é mera coincidência?
No começo eu tinha influência do Angeli, então o Marcozinho era um adolescente de 18 anos que era infantil, e a estrutura das tiras lembrava mais o Chiclete com Banana. Então apareceu o Calvin e Haroldo e aquilo foi a coisa mais legal que já havia visto em termos de tiras, não tive como não ser influenciado, era muito bom. O Marco então, virou um menino comum, de uns 10 anos de idade e ganhou um amiguinho, uma tartaruguinha sem casco chamada de Galapinha, uma espécie de consciência do Marcozinho. Normalmente quando algo me influencia, eu deixo que me influencie, até que eu absorva a coisa toda e acabe desenvolvendo para um estilo próprio. Eu nunca copio idéias nem desenhos, mas imito a estrutura da narrativa, que eu acho fabulosa em Calvin. Acho que o processo foi interrompido pelo cancelamento da tira… eu nunca mais voltei a desenhar o Marco e o Galapinha.

Quando e como surgiu a oportunidade de desenhar para a MAD brasileira?
Eu mandava desenhos pra seção Pretensão da revista, um espaço que o Ota criou para os iniciantes e leitores da revista, desde os 11 anos de idade, na época que conheci da revista e fiquei apaixonado por ela. Mandava um desenho todo mês e alguns foram publicados. Até um dia que eu tinha uns 18 anos e o Ota me mandou um teste pra desenhar na revista como colaborador. Fiz com o maior capricho e mandei pra ele, mas depois ele achou que ainda não estava bom o suficiente e me deixou na geladeira por mais dois anos. Quando eu completei 20 anos resolvi ir na redação da MAD no Rio de Janeiro e conhecer pessoalmente o Ota, sem avisar a ele que estava indo lá. Achei que seria bom ele me conhecer pessoalmente, quem sabe assim eu não ganhasse a confiança dele? Fui ao Rio, conheci o Ota, fiquei no apê dele por umas 3 semanas e até ajudei na campanha dele pra vereador (!!!). Pena que ele não foi eleito. Bom, por este motivo ou simplesmente porque ele me conheceu pessoalmente, passou a me mandar textos de matéria e sátiras pra desenhar.

MAD: Como matar um Teletubbie

Durante quanto tempo você colaborou na MAD?
Uns 2 anos antes de vir pro Japão da primeira vez e depois mais uns 7 anos depois que retornei pro Brasil em 1995. No total uns 9 anos.

Nas suas caricaturas, a gente percebe uma forte influência do Mort Drucker, famoso por caricaturar atores e atrizes nas paródias de filmes e seriados de TV publicadas na MAD norte-americana. Você aprendeu a fazer caricaturas copiando o trabalho do Drucker ou também aprendeu cursando alguma escola de desenho ou coisa parecida?
Sim, como eu falei antes, a MAD foi a minha primeira e maior influência até hoje. Na verdade o cara que me influenciou de verdade foi o Mort Drucker, quando vi o desenho dele pela primeira vez na sátira do Planeta dos Macacos (eu tinha onze anos) ? fiquei impressionado quando percebi que ele havia conseguido passar a personalidade do ator por trás da máscara, e ainda era uma caricatura. Naquele momento eu escolhi o Drucker como meu modelo de desenhista que queria ser um dia e comecei a estudar seu desenho, copiando as vezes páginas inteiras até que ficassem iguais ao desenho dele. Era apenas um processo de estudo, mas quanto mais eu desenhava no estilo dele, mais me apaixonava pelo traço, ao mesmo tempo simples e complexo dele. Ainda hoje acho que ele é o melhor desenhista do mundo. Num momento do processo eu pensei: ?Puxa! Esse cara é tão bom que talvez eu nunca chegue a superá-lo, vou ser no máximo o SEGUNDO melhor desenhista, mas vou continuar tentando!?. Então quando eu parei de desenhar pra MAD, o processo acabou ficando no meio também. Eu parei por problemas de caixa do Ota, que estava me devendo meses de colaboração pra revista, então ele mesmo resolveu parar de me passar trabalho, pra me poupar do calote dele.Eu não cobrava dele nada, eu fazia os desenhos por prazer. Bom, mas como eu dizia, depois que eu passei a publicar na MAD, nunca mais copiei diretamente um desenho do Drucker, tentava fazer do meu jeito, mas aí eu já estava impregnado do traço dele, acabava ficando meio parecido. Hoje eu dia eu me desencano disso, fico tentando coisas diferentes, pois o traço do Drucker funcionava bem pra MAD, mas em outras revistas e projetos não combina muito bem, mas eu não ligo, meu desenho nunca vai ser completamente igual ao dele, pois ele é inigualável.

Tako X: Ilustrador

Você se considera mais desenhista de quadrinhos, caricaturista ou ilustrador?
Ilustrador. Mesmo quando faço quadrinhos ou caricaturas, é um ilustrador fazendo essas coisas. Mas acho que sou mais um ilustrador de idéias, num sentido mais amplo, pois tanto a caricatura, quando os quadrinhos ou o design gráfico que faço são simplesmente ilustrações de idéias. Até mesmo quando eu faço um filme, estou ilustrando uma idéia e fazendo ela surgir no plano concreto. Isso é ilustrar pra mim. Mas como sou formado em Belas Artes, quero desenvolver o lado de desenho artístico também. Eu me identifico muito com a arte, a técnica e o desenho japonês, quero trabalhar temas orientais com uma visão de quem nasceu no Brasil e descende de japoneses e já estou planejando expor meus trabalhos aqui no Japão. Tenho muitos desenhos inéditos e ainda estou preparando novos.

Como foi que surgiu a oportunidade de trabalhar no Japão?
Aqui existe a facilidade de trabalhar num país de primeiro mundo, sem se preocupar com a economia, política, se algum cliente vai dar calote, e se concentrar só no trabalho e na carreira. Da primeira vez que vim pra cá foi em 89, eu vim fugindo do Collor… agora que retornei pra cá em 2004, devo estar fugindo do Lula? (risos)

Você já produziu algo para alguma editora japonesa de “mangás”?
Não, mas já fiz uma série em quadrinhos pra uma revista de musica chamada FM Station, com um personagem chamado Tony Bowie que eu criei, num traço mais cartunizado, tudo em japonês, com ajuda de um amigo tradutor.

Quantos em média um desenhista pode ganhar trabalhando no Japão?
Em média uns 2 mil dólares por mês. Mas pode variar de acordo com o mês, ou a própria capacidade de cada um. E o custo de vida aqui é muito alto, dá pra guardar pouco, mas vive-se bem e com conforto.

A computação gráfica mudou muita coisa no seu trabalho ou você acha que o mais importante ainda é o artista conhecer bem as técnicas tradicionais de desenho?
Eu acho que o computador hoje é indispensável, mesmo com conhecimento das técnicas tradicionais de desenho. É a garantia de que você vai poder competir no mercado que exige cada vez mais rapidez na entrega do trabalho.

Gralha + Oil-Man: Encontro Explosivo

Como surgiu o projeto do “Gralha”? O que esse projeto significou para você?
O personagem foi criado coletivamente, por 8 cartunistas residentes em Curitiba, em outubro de 1997, numa edição especial (comemorando os 15 anos da Gibiteca de Curitiba ) da extinta revista Metal Pesado. Depois ele passou a ser publicado semanalmente na Gazeta do Povo durante 2 anos seguidos. Em 2001 foi lançada uma coletânea das histórias publicadas que ganhou o Prêmio de Melhor álbum de Aventura e Ficção do HQMIX de 2001. Para mim, o projeto do Gralha culminou na produção dos dois vídeos com o super-herói. Assim que terminei um curso de cinema com a Tizuka Yamasaki, eu apresentei ao grupo de alunos a proposta de realizar um curta live-action com o Gralha, com a condição que eu dirigisse. Bolei o roteiro e chamei meu amigo Eduardo Moreira pra encarnar o super-herói. Todos gostaram e partimos pra produção. A maioria eram jovens universitários com muita vontade e sem emprego, o que garantiu a dedicação total do grupo no mês de preparação do filme. Corremos atrás de patrocinadores e parceria com empresas de edição de vídeo que se mostraram dispostas a colaborar e serem parceiras do projeto. Rodamos em duas semanas e editamos em dois meses o curta O Ovo ou a Galinha com o Gralha. O filme é todo original, inclusive a trilha sonora e incidental, algumas foram feitas exclusivamente para o filme e outras foram cedidas por bandas locais pra uso no curta. O resultado ficou melhor do que eu esperava, houve um empenho realmente muito grande para que o resultado saísse muito profissional. Havia o câmeraman que já havia trabalhado com o Walter Avancini, e o editor já havia trabalhado na Globo paranense, e havia pessoas muito competentes em cada área, ou seja, não tinha como sair ruim.

A recompensa desse esforço acabou sendo a premiação de Melhor Filme pelo juri popular do Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba de 2003. Depois fizemos somente mais um curta com ainda menos recursos pessoais e de verba, dessa vez com uma câmera digital (o outro foi em beta) chamado “O Gralha e o Oil-man  um Encontro Explosivo” contando o inusitado encontro entre as duas lendas vivas de Curitiba. No início desse curta fizemos uma experiência de desenho animado com o personagem e no final um trailer falso de um suposto filme chamado ?O Mito? e lá no fim do trailer nós colocamos uma brincadeira onde o locutor anunciava: ?Breve num cinema perto de você!? e em seguida aparecem só umas legendas pequeninas escrito na tela: ?… se algum patrocinador se interessar!? Essa brincadeira, com o passar do tempo, provou ter um grande fundo de verdade: realmente estamos até hoje esperando esse patrocinador que nunca apareceu. Mas eu nunca tive uma ilusão muito grande sobre fazer cinema no Brasil, eu vi muitos exemplos da dificuldade de produzir filmes, inclusive da própria Tizuka que levou vinte anos pra fazer a seqüência de Gaijin, seu filme mais importante. Por isso, se o tal patrocinador não aparecer, seja no Brasil ou no Japão, o terceiro curta ou um longa do Gralha estão muito longe de acontecer. Como artista, eu estou satisfeito com os dois filmes já produzidos, acho que eles contém tudo que eu gostaria de ter falado sobre o tema de super-heróis, não acho que tenha faltado algo. Claro que se houvesse oportunidade eu faria outros filmes, por dinheiro e também pra me divertir, por que não? Mas artisticamente, se não vierem mais filmes por falta de grana, estes dois passaram a mensagem que eu quis passar, a de que um filme de super-herói no Brasil é ao mesmo tempo possível, mas improvável também. Tão improvável quanto o fato dele ter ganho um prêmio num festival de cinema sério, coisa que acho difícil algum outro conseguir em qualquer lugar do mundo.

Você pretende voltar a morar e trabalhar no Brasil?
Sim, algum dia. Eu acabei de assinar um contrato pra ser o chargista do maior jornal da comunidade brasileira residente aqui, o International Press, então devo ficar alguns anos por aqui.

Qual conselho você daria aos aspirantes a desenhista profissional que estão no Brasil?
Que estudem bastante e se possível façam um curso superior numa área próxima do desenho. E nunca desistam!

Por último, qual mensagem você gostaria de mandar aos leitores brasileiros que acompanharam seus trabalhos na MAD e em outras publicações?
Que se quiserem acompanhar meus trabalhos e projetos é só acessar minha página na internet, o www.takox.com.br.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s